A bolsa e a queda dos juros. Duas leituras
A flexibilização da política monetária traz duas possíveis leituras para o desempenho futuro da bolsa. Na primeira, o comunicado do Banco Central (BC) traça um cenário negativo para a atividade econômica, o que por si só contribuiria para a queda da inflação. Na outra, o BC poderia estar mais leniente com o índice geral de preços, pretendendo atingir o centro da metade somente em 2013. Quais estratégias em bolsa devem ser tomadas em cada cenário?
Cenário 1 – Arrefecimento econômico. O problema é saber qual a intensidade?
Na primeira situação, tudo vai depender de quanto será a desaceleração da atividade econômica. Em uma queda abrupta do PIB, o investimento em bolsa parece não ser a melhor alternativa. Nesse caso, companhias industriais – WEG, Marcopolo, Indústrias Romi - devem sofrer mais, pois não teriam espaço nem no mercado externo nem no doméstico, que estaria mais fraco. Assim, setores cuja demanda seja menos sensível à atividade econômica, como o setor elétrico, seriam os menos prejudicados. Cemig despontaria como uma boa opção. Mas a melhor alternativa seria estar fora de bolsa.
Por outro lado, um crescimento do PIB brasileiro em torno de 2,5% a 3% pode ser benéfico para setores dependentes de crédito como as imobiliárias e bancos, pois o crescimento ainda seria razoável e os juros estarão menores. Já discuti exaustivamente a situação das construtoras e incorporadoras em posts anteriores e minha preferência pelas ações ordinárias de Brookfield, Rossi e PDG.
As ações de bancos sofreram muito durante 2011, quando o BC iniciou o aperto da política monetária. Os investidores, em especial os estrangeiros, passaram a acreditar que o Brasil poderia estar próximo de uma bolha de crédito. Essa percepção adveio principalmente da relação serviço financeiro sobre a renda disponível, que atingiu 26% no Brasil, superior ao do sistema bancário norte americano.
Contudo, é importante ficar atento a alguns pontos: (i) o prazo da dívida é mais curto no Brasil, pois a participação do financiamento imobiliário no sistema ainda é baixo (em torno de 4% do PIB), logo os bancos podem mudar o perfil de seu endividamento de forma mais rápida; (ii) o Banco Central Brasileiro adota uma metodologia mais conservadora ao calcular os serviços financeiros aplicando os juros correntes sobre o total da dívida atual e (iii) a fatia do crédito na economia brasileira representa 42% da renda, bem inferior a verificada em países desenvolvidos.
Com a redução dos juros, essa preocupação deve se arrefecer, pois os custos financeiros serão menores para os devedores e, por outro lado, a desaceleração econômica não será suficiente para gerar uma queda abrupta do emprego e da renda o que poderia aumentar a inadimplência. Logo, as preferenciais de Itaú e Bradesco seriam uma boa opção de investimento.
Cenário 2 – A volta do dragão da inflação
Na segunda hipótese, a inflação anual ficaria em torno de 6% a 7% ao ano. O dilema “maior inflação para maior crescimento” é falso, pois a manutenção da inflação por longos períodos inviabiliza os alicerces para o crescimento (o Brasil vivenciou essa situação por longas décadas). Contudo, no curto prazo, o ritmo da atividade econômica pode continuar em patamares mais elevados do que no do cenário 1. Nesse contexto, minha recomendação para investir em bancos e imobiliárias continuaria valendo.
Resumindo, caso a atividade econômica brasileira mantenha-se em nível razoável , a carteira deve conter os setores que mais sofreram devido ao aperto da política monetária – bancário e imobiliário. As ações recomendadas são Brookfield ON (BISA3), Rossi ON (RSID3), Itaú PN (ITUB4) e Bradesco PN (BBDC4). Alguns analistas têm recomendado as ações ordinárias de Banco do Brasil (BBAS3). Como o cenário está incerto, não pode ser descartada a utilização do banco público para incentivar a economia como já verificado em 2008. Assim, Itaú e Bradesco são as melhores opções.
Até o próximo post.
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