Luz, câmera, ‘ação’! Bolsa é mais do que investimento
O mercado acionário para a sociedade americana é muito mais do que uma forma de poupança. Faz parte da rotina dos americanos. Não à toa filmes e livros sobre o assunto são lançados em profusão no país. Por que os brasileiros são tão reticentes em relação à bolsa? O momento atual não pede uma mudança de mentalidade? A bolsa expande o nível de conhecimento do investidor.
O mercado acionário explica parte da pujança da economia americana. O incentivo à iniciativa privada proporciona espaço para o surgimento de personalidades como Steve Jobs, Bill Gates, Warren Buffett, Mark Zuckerberg. A bolsa é a vitrine do “self-made man”, alimentando o sonho da população. Nos EUA, as empresas listadas são chamadas de “public companies”. Não porque o controlador seja o Estado, mas porque suas ações estão disponíveis para investimento pela população em geral. Parece uma mera questão semântica, mas retrata o entendimento sobre o funcionamento da economia. A força motriz é o investimento privado, enquanto o Estado atua de forma mais sutil.
Já no Brasil, ações de grande relevância na bolsa são ou eram estatais (as “state owned companies” para os americanos): Banco do Brasil, Petrobras, Vale, Oi, Vivo, Usiminas. Grandes conglomerados privados brasileiros ainda se mantêm distantes da bolsa. O capitalismo se construiu em outras bases. Com essa configuração, a bolsa brasileira tem poucas histórias corporativas de sucesso para contar. Os executivos das estatais são nomeados pelo governo e muitos dirigentes privados atuam longe dos olhos da população. O “self-made man” ainda é um personagem mais ou menos distante do imaginário brasileiro.
A combinação de hiperinflação e de juros reais elevados também contribuiu para o distanciamento do investidor do mercado acionário.
Assim, não surpreende que alguns leitores produzam comentários no blog O Estrategista associando a bolsa a uma terra sem lei ou a teorias conspiratórias.
Mas o cenário está mudando. Mais de cem companhias abriram o capital desde 2004. Histórias corporativas de sucesso começam a despontar. Os juros atingiram o menor patamar da história.
Saindo da visão pessimista de curto prazo que domina o mercado, a bolsa parece um caminho natural.
O investimento em ações tem muitas vantagens. Expande o nível de conhecimento do aplicador, por exemplo. Ao montar uma carteira de ações ou entrar em um clube de investimento, além da busca por rentabilidade, o investidor aprende novas disciplinas: macroeconomia, negócios, direito societário, contabilidade.
Achou os temas chatos? Pois saiba que o mercado pode oferecer suspenses semelhantes aos dos grandes filmes. Companhias são formadas por pessoas. Logo, vaidade, ambição, disputa por poder são temas constantes: o recente embate entre Abílio Diniz e a varejista francesa Casino (sócios no Pão de Açúcar), as disputas entre minoritários e os controladores da Oi, a ambição de Eike Batista na construção de seu império, a discussão entre os acionistas e o fundador da empresa de saúde Dasa e várias outras. As novelas são muitas.
A bolsa brasileira ainda é terreno de uma minoria. A BM&FBovespa informa que havia 581 mil cadastros de pessoa física em junho de 2012. Esse número está superestimado, pois a bolsa utiliza o critério de CPF cadastrado em cada agente de custódia. Logo, ela pode contabilizar o mesmo investidor mais de uma vez caso ele possua conta em mais de uma corretora. Além disso, são computados os investidores que possuem saldo investido na data de referência. Contudo esses podem ter montado sua posição há vários anos e não terem movimentado sua carteira desde então. Logo não representam o investidor que opera com frequência. Três corretoras com quem conversei estimam entre 100 mil e 140 mil o número de acionistas individuais ativos na bolsa brasileira. Número irrisório comparado à população brasileira.
Está na hora de o mercado acionário estar mais presente na vida das pessoas como reflexo de um novo estágio de nossa economia. Quando teremos histórias dignas de serem levadas ao cinema? De preferência enredos como o de “A Rede Social” e não o de “Margin Call – O Dia antes do Fim”.
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