4 | Postado por: André Rocha Seção: Análise de ações

As lições a serem aprendidas com a OGX

Após reduzir a estimativa de produção de um de seus campos, as ações da petrolífera foram duramente penalizadas caindo 40,5% na última semana. Quais lições a se aprender com o episódio?

A administração da OGX informou na última terça, 26 de junho, que os dois primeiros poços do campo de Tubarão Azul terão uma produção de 5 mil barris por dia, 57% inferior à estimativa anterior entre 10 e 13 mil barris diários.

Como reflexo, as ações ordinárias de OGX (OGXP3) caíram 25% na quarta (27/06) e mais 19% na quinta (28/06).

A comunicação tumultuada da companhia com o mercado traz para discussão alguns temas relevantes:

1)    IPO de companhia pré-operacionais – O post “A análise das empresas de Eike pelo fluxo de caixa descontado”, de 20/01/12 mostra a dificuldade para se analisar companhias em estágio pré-operacional. Métricas usuais como múltiplos (P/L-preço por lucro ou FV/EBITDA) não funcionam, pois as companhias não apresentam resultados operacionais consistentes no curto prazo. Logo, os indicadores são muito elevados o que impede uma comparação com seus competidores que já são operacionais. Assim, sobra a utilização do fluxo de caixa descontado, no qual a geração de caixa dos próximos anos é trazida a valor presente a uma determinada taxa de desconto. Como os resultados dos primeiros anos são incipientes, grande parte do valor das companhias pré-operacionais se encontra no futuro. Desnecessário dizer que o investimento nessas companhias apresenta maior risco, porque quanto mais distante, mais imprecisas são as projeções. Além disso, como não há um histórico de resultados, as premissas e estratégias fornecidas pela administração e pelos sócios ganham maior relevância. Daí a forte queda das ações da OGX após o desapontamento com as revisões de estimativas.

Outro ponto a ser discutido é se a bolsa de valores é o ambiente mais apropriado para a negociação das ações das companhias pré-operacionais. Embora questionável, o “modus operandi” dos analistas de mercado é baseado em análises de curto prazo: os resultados trimestrais e o acompanhamento das notícias. Como estas empresas podem atender a esta demanda dos profissionais de mercado se ainda não produzem resultados?

Embora a discussão comporte vários enfoques, em minha opinião essas companhias não deveriam ter acessado a bolsa de forma tão prematura. Reproduzo parte do meu post “O fracasso dos IPOs das cias pré-operacionais”, de 11/01/12: “Essas companhias pularam etapas. Os investidores mais apropriados teriam sido os fundos de participação (“private equities”). O momento mais adequado para virem a mercado teria sido quando os resultados se tornassem mais consistentes. Sem esses, os analistas concentram suas avaliações em aspectos subjetivos – a capacidade da administração de entregar o prometido ou as perspectivas do setor. Fazendo uma analogia com a crítica teatral, seria como se os analistas estivessem observando os ensaios e não a peça”.

2)    Investimento na área de relação com investidores (RI) – a maior parte das companhias vê o departamento como centro de custos e não de geração de resultados. Prova disso é que na maior parte das vezes o diretor de finanças acumula a função de diretor de RI. Essa configuração faz sentido em empresas de menor porte, mas não nas grandes corporações. O departamento de RI é a porta de entrada para os investidores. É o primeiro contato com a companhia. Os profissionais da área devem entender o linguajar do mercado de capitais, de preferência tendo já atuado nele. As informações operacionais devem ser “traduzidas” para a linguagem dos analistas e gestores. As expectativas e projeções do mercado devem ser monitoradas de perto pelo RI. Ele deve ter uma postura proativa. É fundamental que o diretor da área esteja concentrado em sua atividade. Um comentário mal colocado pode ter efeito nefasto sobre o preço da ação. E, aí, de que valeu a economia na montagem do departamento?

3)    Estimativas oficiais das companhias (“guidance”) – O administrador deve ser conservador em suas estimativas sejam elas quais forem - produção, receita, EBITDA ou margem operacional. A partir do momento em que um “guidance” é fornecido ao mercado, este passa a ser o mínimo a ser aceito pelos investidores. Após a apresentação de um resultado inferior, as explicações, mesmo que bem intencionadas, não costumam ser suficientes para estancar os efeitos negativos sobre as ações.

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