2 | Postado por: André Rocha Seção: Análise de ações

Investimento em ações não é ciência exata

Apesar de a matemática ser essencial para uma boa análise de ações, não podemos nunca nos esquecer que os papéis são negociados por indivíduos e esses não são sempre racionais. Não existe um modelo perfeito para a escolha das ações. Bom senso é um ativo importante na avaliação. Veja alguns exemplos de como a falta de flexibilidade pode gerar decisões de investimentos equivocadas.

A avaliação das ações não prescinde da matemática, seja para a elaboração do fluxo de caixa descontado ou para se calcular os múltiplos P/VPA (preço por valor patrimonial por ação) ou P/L (preço por lucro), por exemplo. Mas outras disciplinas são tão importantes quanto, como a contabilidade, a economia e, por que não dizer, a psicologia.

Uma abordagem muito lógica ao se analisar ações pode descartar bons investimentos. Uma visão maniqueísta - de sim ou não, de preto ou branco, sem ceder espaço ao “talvez” ou ao “cinza” – deve ser evitada. É necessário se ter alguma flexibilidade. Essa, muitas vezes, é confundida com falta de disciplina, mas são questões distintas.

Esse apego a matemática na análise de ações me lembra dos diversos artigos de Delfim Neto onde ele critica o uso dogmático dos modelos para o cálculo do PIB potencial pelos economistas. Essa ferramenta indica o crescimento possível da economia sem gerar pressões inflacionárias.

Abaixo algumas experiências vivenciadas que mostrou como uma visão cartesiana na avaliação de empresas pode ser nefasta:

1)      Cuidado com o potencial de valorização, pois ele pode enganar: No início da década passada, as ações da Embratel apresentavam forte desvalorização. O modelo de negócios da companhia sofria ataques de todos os lados: aumento da concorrência nas ligações de longa distância pelas companhias de telefonia fixa e celular, o aparecimento de novas tecnologias que reduziam o custo da ligação como o “voip” (“voice on internet protocol”), a falta de um cadastro confiável dos clientes e um controlador omisso - a MCI - que enfrentava um processo de concordata nos Estados Unidos. Com a queda sucessiva da ação, o potencial de valorização do papel em relação ao “preço-alvo” do mercado era cada vez maior. Diariamente investidores me interpelavam com a mesma pergunta “não está na hora de comprar a ação?”. Para a mesma pergunta, dava a mesma resposta: a deterioração estrutural do modelo de negócios e o fato de o preço-alvo não vir sendo atualizado com a frequência necessária pelas corretoras. Tudo em vão. O pseudo elevado potencial de valorização era a única variável observada pelos investidores.

2)      Múltiplo menor não é a única métrica para a escolha do ativo: Em uma ocasião indiquei a ação “X” baseado em múltiplos baratos, bom potencial de valorização por fluxo de caixa descontado e entrega consistente de resultados pela administração. Fui indagado por que não tinha selecionado a ação “Y” que apresentava múltiplo menor. Enquanto minha escolhida apresentava múltiplo FV/EBITDA de 4,2 vezes, outra do mesmo setor apresentava indicador de 4,0 vezes. O raciocínio meramente matemático impedia o profissional de perceber que qualquer desvio nas projeções poderia elevar o múltiplo da ação “Y”.

3)      Não existe a ação ideal: Há gestores que querem investir em ações de companhias com alto grau de governança corporativa, forte crescimento dos lucros, elevado potencial de valorização por fluxo de caixa descontado, baixos múltiplos e elevada rentabilidade por dividendos (“dividend yield”). Um sonho. Mas a realidade é menos glamourosa. A escolha deve ser pela melhor alternativa dentre as existentes. Aqui entra a flexibilidade citada no início do texto. Como dizia minha avó: “perfeição, meu filho, só no céu”.

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