1 | Postado por: André Rocha Seção: Conjuntura

Nova poupança pode sinalizar revolução no mercado acionário

A fim de adequar a caderneta de poupança ao novo cenário de queda da taxa de juros, o governo alterou as regras da mais popular aplicação financeira brasileira na última semana. Por que esse novo cenário pode provocar uma revolução no mercado acionário brasileiro? Quais setores serão os mais beneficiados?

O impacto mais relevante sobre o mercado acionário derivado das novas regras da poupança decorrerá do melhor ambiente macroeconômico. A alteração do cálculo da rentabilidade da poupança sinaliza reduções adicionais na taxa Selic no médio prazo. Esse ambiente de juros mais baixos tende a ser benéfico para a bolsa por três motivos:

(i) A queda dos juros tornará menos atrativos investimentos mais conservadores e, por sua vez, aumentará a competitividade da bolsa. Como dito no post “Como calcular sua independência financeira?”, de 20/03/12, os investimentos necessários para garantir uma aposentadoria tranquila dependem do patamar dos gastos familiares e dos juros reais. A primeira está na mão do investidor, enquanto a segunda é uma variável exógena. A fim de obter uma melhor remuneração nesse cenário, os investidores terão de buscar aplicações mais agressivas, entre elas a bolsa;

(ii) Com a redução dos juros, os preços-alvo das ações das companhias listadas sobem. Por quê? Considerando que a análise das ações seja feita adotando-se a metodologia do fluxo de caixa descontado, a geração de caixa das empresas é trazida a valor presente a uma determinada taxa de desconto. Com a queda dos juros, reduz-se também a taxa de desconto, aumentando o valor presente líquido do fluxo de caixa e, com isso, os preços-alvo das ações;

(iii) Uma redução consistente dos juros abrirá espaço no orçamento do governo federal para diminuição da carga tributária o que tornará o ambiente de negócios mais saudável, beneficiando a economia como um todo.

Podemos estar diante de uma mudança radical na forma como o investidor brasileiro vê o mercado acionário. Mas claro que a atratividade da bolsa depende de outras variáveis como a resolução da crise europeia.

E os setores bancário e imobiliário? Irão se beneficiar? Apenas marginalmente. Por quê? Antes é necessário entender a ligação entre a caderneta de poupança e o financiamento imobiliário.

A atual remuneração da poupança é de TR (taxa referencial) mais 0,5% ao mês, implicando uma remuneração de TR + 6,17% ao ano. Em 2011, a TR valorizou-se 1,4%. O cálculo atual da poupança com juros fixos impede a continuação da redução da Selic, atualmente em 9% ao ano. Pela nova metodologia proposta pelo governo, caso a Selic atinja rentabilidade inferior a 8,5% ao ano, a remuneração da poupança deixará de ser atrelada à TR e a juros fixo, passando a valer 70% da variação da Selic. Para as aplicações antigas continuará valendo a atual remuneração de TR mais 0,5% ao mês.

O saldo da caderneta de poupança serve de fonte de financiamento para o segmento imobiliário residencial. Os bancos devem investir 65% dos recursos depositados na caderneta de poupança no setor, atendendo construtoras ou mutuários. Desse montante, 80% deve observar as regras do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) que é regulado pelo governo federal com juros limitados a 12% ao ano e período de amortização variando de 15 a 25 anos. Os 20% restantes devem ser aplicados no mercado livre onde as taxas são pactuadas pelos contratantes.

O crédito imobiliário vem apresentando forte crescimento nos últimos anos. Há dois fatores principais para essa expansão: a criação da alienação fiduciária que aumentou a garantia em caso de inadimplência do mutuário e a redução da Selic nos últimos anos.

Dessa forma, os mutuários já têm obtido juros inferiores ao do teto do SFH de 12% ao ano. O banco capta a TR + 6,17% ao ano (a remuneração da poupança), coloca um “spread” e cobra dos mutuários TR + 8,5% a 10%, dependendo do perfil de crédito do devedor. Com a expectativa de que a Selic caia ainda mais, pode se esperar a continuidade da queda da taxa do financiamento imobiliário de forma a impulsionar ainda mais a demanda por imóveis residenciais?

Não acredito por dois motivos:

(i) os bancos ficarão reticentes em reduzir o custo do financiamento, pois caso haja reversão do movimento da Selic, com posterior incremento, os bancos poderiam passar a ter prejuízo na operação e

(ii) as instituições financeiras continuarão tendo que pagar TR + 6,17% ao ano para o saldo atual da poupança.

Também não acredito que os juros do financiamento imobiliário passem a ser flutuantes. Essa alteração pode aumentar a inadimplência. Imagine um mutuário que tenha feito o cálculo de sua prestação com juros de 7% ao ano. Caso esses juros passem a 9% ao ano haveria uma majoração da prestação nos contratos pós-fixados. Com isso o orçamento familiar poderia ficar comprometido em decorrência desse custo adicional.

E o impacto sobre os bancos? Apesar do forte crescimento nos últimos anos, o financiamento imobiliário ainda é pouco relevante comparado ao total do crédito. No primeiro trimestre, o crédito ao segmento representava 5,2% do total no Itaú Unibanco; 3,0% no Bradesco; 1,6% no Banco do Brasil e 4,8% do Santander.

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