As gestoras de ações têm mesmo visão de longo prazo?
No discurso, a maioria das gestoras diz usar a análise fundamentalista e adotar uma visão de longo prazo na seleção dos ativos para compor sua carteira. Será? Como tratar as informações de curto prazo, buscando uma rentabilidade maior no médio prazo?
Já tratei anteriormente sobre a relevância (ou não) do resultado trimestral. Uma importância exagerada dada ao resultado trimestral é incoerente com uma abordagem de longo prazo. Considerando que a análise fundamentalista seja utilizada, é provável que o analista recorra à metodologia do fluxo de caixa descontado, projetando a geração de caixa da companhia por um período entre cinco e dez anos e trazendo-a a valor presente a uma determinada taxa de desconto. O resultado de um trimestre representa apenas 2,5% do período analisado. Se o resultado ruim no trimestre for pontual, ele afetará marginalmente o preço-alvo da ação. O investidor pode até fazer ajustes marginais aumentando ou reduzindo sua posição em decorrência desse trimestre. Contudo, tomar decisões radicais como vender toda a sua posição é incoerente com uma estratégia de investimento de longo prazo.
Retorno ao tema após ler o excelente artigo de Aquiles Mosca aqui mesmo nesse espaço, publicado em 26 de abril. Ele mostra com dois exemplos como o mercado se equivocou ao tomar decisões precipitadas baseando-se nas expectativas dos analistas para o curto prazo.
O primeiro caso é o do Google. O resultado do último trimestre de 2005 registrou crescimento da receita e do lucro operacional de 97% e 82%, respectivamente. Como o “mercado” esperava um lucro US$ 65 milhões acima do reportado, as ações despencaram 16% no início do pregão. A diferença de US$ 65 milhões representava meros 0,3% do valor de mercado da companhia na ocasião (US$ 20,3 bilhões). Quanta irracionalidade praticada com base em um simples resultado trimestral.
Outro exemplo citado por Mosca refere-se à Apple. Não se trata de resultados trimestrais, mas da expectativa dos analistas em relação às estimativas oficiais da companhia (“guidance”). Em setembro de 2000, a Apple anunciou que seu resultado ficaria US$ 55 milhões abaixo da sua própria estimativa, embora 27% superior ao observado no período anterior. Com a informação, as ações caíram 52%. Após esse episódio, a companhia lançou o iMac, o iPod, o iPad e fez história.
No Brasil, instituições passam a privilegiar o curto prazo, pois a concorrência do CDI é ingrata. Aplicando em fundos de renda fixa, o investidor conservador obtém liquidez e rentabilidade diárias. Assim, para que correr riscos na renda variável? Com isso, fundos de ações também passam a se preocupar com a cota, evitando fortes oscilações que possam assustar o aplicador. A visão de longo prazo é descartada. Interessante notar que até mesmo instituições sem necessidade de captar novos recursos e sem sofrerem a “ditadura da cota diária” seguem essa tática. Conversando com um analista de ações de uma instituição responsável por administrar o patrimônio de uma importante família brasileira, percebi uma preocupação excessiva com os resultados do terceiro trimestre de 2011. Retorqui:
– Mas vocês possuem apenas um cotista... não precisam captar novos aplicadores. Não seria melhor ter uma visão de mais longo prazo, buscar maior rentabilidade? O cotista cobra de vocês essa abordagem?
– Não, ele não nos cobra rentabilidade diária. Mas o mercado tem essa preocupação. A ação acaba refletindo o resultado do trimestre!
Se uma instituição com tais características tem essa postura, imagine um fundo de ações com foco no varejo!
A empresa em que você investiu apresentou um resultado mais fraco do que o esperado no trimestre? A cotação deve sofrer após o anúncio. Mas calma. Respire fundo. Se você confia nos fundamentos da mesma, vale a pena até aumentar sua posição. E desconfie sempre, sempre de casas especialistas em ações que deem muito valor aos resultados trimestrais. Não é comum um único trimestre sinalizar uma mudança radical nos fundamentos de uma empresa. A ação pode sofrer no dia da divulgação do resultado, mas, se a queda da cotação for derivada de aspectos menores, ela deve se recuperar.
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