Cenário para 2012 segundo Nelson Rodrigues
Qual cenário econômico o dramaturgo e escritor selecionaria para 2012? O que esperar do mercado acionário brasileiro?
Apesar das excelentes campanhas da seleção de futebol nas Copas de 1938, 1950 e 1954, a imprensa e a torcida continuavam céticas sobre a qualidade do futebol brasileiro. O pessimismo aumentou com a perda do título mundial na Copa de 1950 no Maracanã. Nelson Rodrigues apelidou essa falta de autoestima como “complexo de vira-lata”. Com a conquista do campeonato mundial em 1958, esse sentimento de inferioridade foi se reduzindo, até nos transformarmos em uma potência do esporte. Essa síndrome não estaria ocorrendo no campo econômico?
Apesar do bom desempenho da economia brasileira ao longo da década passada, comentários pessimistas permeiam o noticiário. Nossas mazelas estão expostas: estrutura tributária caótica, sistema educacional deficiente, inércia inflacionária derivada de contratos com cláusula de reajuste automático, política fiscal frouxa, sistema judiciário pouco produtivo etc. Em um mercado de natureza instável como o acionário, difícil não se deixar contagiar.
Mesmo não negligenciando nossas deficiências, acredito que há espaço para um otimismo moderado para 2012. Contudo o desempenho da bolsa brasileira ainda apresenta forte correlação com o desfecho da crise europeia. Como explicado em outros artigos, entre várias possibilidades, vejo dois possíveis cenários.
No primeiro, mais negativo, as dívidas soberanas dos países europeus saem de controle afetando todo o sistema financeiro, levando a uma ruptura econômica. Nesse panorama, a pessoa física não deve investir em ações.
Em um cenário mais brando, o Banco Central Europeu (BCE), conjuntamente com os governos, lideram uma saída negociada evitando que a crise avance sobre os bancos europeus. Nesse caso, os países emergentes tendem a ser beneficiados, pois possuem uma dinâmica econômica mais saudável. Assim, a bolsa brasileira pode apresentar uma recuperação.
Aposto nesse segundo cenário. Isso não significa que a bolsa não deva apresentar volatilidade ao longo do ano. Contudo, acho que faz sentido alocar parte dos recursos livres em bolsa. O montante a ser investido depende do perfil de risco de cada investidor.
Não preciso ir longe para reiterar meu moderado otimismo. Basta ler artigos e notícias publicados aqui mesmo no Valor Econômico. O dia 7 de dezembro foi pródigo: “Headhunters estão otimistas sobre contratações em 2012” e “Com desenvolvidos em crise, Brasil atrai recursos externos”. Essa última reportagem fala do crescimento do “private banking” dos bancos nacionais, aproveitando-se da crise para absorver clientes dos bancos estrangeiros. No mesmo dia, Alexandre Marinis, sócio da consultoria Mosaico, no artigo “Brasil pode sustentar o crescimento em 2012”, elenca dez razões para um satisfatório desempenho da economia no próximo ano.
Já Caio Megale, economista do Itaú Unibanco, no artigo “Crise e crescimento de longo prazo - Fundamentos do desenvolvimento brasileiro dos últimos anos continuam presentes”, de 16 de novembro, mostra os desafios a serem enfrentados pelo Brasil, mas sem um tom catastrofista.
Em relação a fundos de empresas de capital fechado, a notícia “Private equity tem captação recorde”, de 17 de novembro, coloca que o volume de recursos captados de US$ 4,5 bilhões entre janeiro e setembro de 2011 supera o recorde anterior de US$ 3,5 bilhões ocorrido em 2008. Após captar, é de se esperar que os fundos invistam na economia real ao longo de 2012.
Apesar da turbulência em 2011, com rebaixamento de crédito dos Estados Unidos e incerteza sobre as dívidas soberanas europeias, a BM&FBovespa apresentava entrada líquida de investimentos estrangeiros no montante de R$ 2 bilhões no ano (até 5 de dezembro). Se a situação europeia apresentar uma resolução favorável, é muito otimismo esperar uma entrada mais forte de recursos externos em 2012?
Está na hora de o brasileiro deixar de ser “um narciso às avessas, que cospe na própria imagem” também no campo econômico.
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