Cuidado com a estratégia "comprar e manter"
A estratégia de investimento em ações de comprar e manter (“buy and hold”) é bastante difundida no mercado. O investidor em ações deve ter um horizonte de longo prazo. Contudo, uma reavaliação periódica da carteira de ações é recomendável. Veja em seguida um exemplo hipotético, mas que poderia ter sido real.
Imagine-se com 30 anos em dezembro de 1979. Você decide montar uma carteira de ações de olho na sua aposentadoria aos 60 anos, em 2009. Observa o cenário macroeconômico. Os países desenvolvidos estão em crise (parece-lhe familiar?), vítimas do segundo choque do petróleo. A inflação galopa no mundo. Receoso com o cenário externo, você resolve apostar em empresas cujas atividades são voltadas para o mercado doméstico (seu corretor falou algo parecido recentemente?). Os setores de consumo e serviços financeiros representam 14,3% e 20,2% do Ibovespa, respectivamente.
Você opta por companhias com marcas reconhecidas. Por que não investir em empresas de varejo como Mappin e Mesbla? Ou em instituições financeiras como o Banco Nacional e Econômico? Quem sabe em companhias com forte apelo junto ao público infantil: Bicicletas Monark e Estrela.
Ainda bem que se trata de um raciocínio hipotético. Caso contrário sua aposentadoria estaria comprometida. A primeira teve falência decretada em 2000 e a segunda teve operações encerradas em 1999. Os bancos estão em liquidação extrajudicial. Por fim, as empresas de brinquedo continuam negociando, mas com liquidez muito reduzida. Essas ações representavam em torno de 4% da carteira teórica do Ibovespa referente ao primeiro quadrimestre de 1980.
O site empresasemercados.blogspot.com fez um levantamento do destino das companhias cujas ações fizeram parte do Ibovespa em algum momento. Tomando por base esse estudo, 6% da carteira do índice do primeiro quadrimestre de 1980 refere-se a companhias que faliram, entraram em concordata ou tiveram liquidação extrajudicial decretada. Outros 15% são relacionados a ações que apresentam baixa liquidez atualmente; 9% tiveram o registro cancelado e 16% foram incorporadas por outras companhias. O autor não conseguiu localizar o paradeiro de ações de companhias que representavam 3% do índice no início de 1980. Assim, cerca de 50% da carteira teórica do Ibovespa referente ao período de janeiro a abril de 1980 não faz mais parte da bolsa ou perdeu representatividade ao longo do tempo.
Não é possível sabermos o desempenho dessa carteira teórica, pois a BM&FBovespa somente disponibiliza dados a partir de 1986. Além disso, a hiperinflação vivida pelo país ao longo de décadas prejudica estudos mais longos. Contudo, é notório que ao longo do tempo políticas econômicas ou a entrada de novos protagonistas como a China modificam a correlação de forças da economia. A bolsa reflete essas mudanças.
O post “Nada é permanente a não ser a mudança”, de 7 de novembro, mostra as alterações setoriais ocorridas no Ibovespa ao longo de três décadas. A análise fundamentalista “top-down” prega que se deve conhecer o cenário macroeconômico para posterior escolha das melhores alternativas de ações. Logo, nada melhor do que compreender o passado para tomar decisões sobre investimentos futuros.
O exemplo acima é exagerado. Apesar de o investimento em bolsa não ter o caráter imediatista proposto pelas corretoras, o sentido de “longo prazo” deve ser relativizado. Uma rotação da carteira periodicamente é recomendável, desfazendo-se das ações perdedoras e incorporando aquelas com melhores perspectivas ao portfolio.
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