| Postado por: André Rocha Seção: Análise de ações

Há espaço para otimismo comedido com a bolsa

Inflação no Brasil, crise nos Estados Unidos e na Europa, desaceleração econômica lá fora e aqui, tudo isso tem pressionado o Ibovespa. Mas há espaço para otimismo, acredita o economista-chefe e diretor da Bradesco Corretora, Dalton Gardimam.

Não é pouca coisa sair otimista – embora de modo contido - de uma conversa com Gardimam. Seus relatórios antes do estouro da crise de 2008 já chamavam atenção para os problemas da economia americana associados ao elevado endividamento do consumidor. Em entrevista ao blog O estrategista, o economista disse que vê valor na bolsa brasileira, apesar de todas as crises que nos rondam. Aliás, sua opinião coincide com a de André Esteves, presidente do BTG Pactual, dada em entrevista ao Valor em evento realizado nesta semana.

O economista faz parte da “geração cética”, assim como eu: a dos profissionais com mais de 40 anos que trabalham no mercado acionário brasileiro desde os anos 90. Essa geração coleciona crises, México, Ásia, Rússia, apagão, Argentina, pré-eleição de 2002, mensalão, das hipotecas... Crises cujas causas são as mais variadas. Além disso, conviveu com um período de alta inflação, que gerou planos econômicos fracassados, entre os quais Plano Verão, Collor, Collor II etc.

“A crise da dívida europeia não acabou”, afirma. Problemas resistem. A dívida grega, mesmo após a restruturação, permanece em torno de 120% do PIB. De acordo com a literatura, índices superiores a 90% merecem cautela. Os bancos ainda necessitam de capitalização, mas o montante necessário ainda não está claro. E, por fim, deve-se fazer uma blindagem sobre Itália e Espanha, evitando que o mercado especule contra esses países, pois essas dívidas são grandes o suficiente para provocar uma crise de proporções elevadas. Por exemplo, a dívida soberana italiana é a 3ª maior do mundo.

A estimativa oficial da Bradesco Corretora para o crescimento do PIB brasileiro para 2012 é de 3,2%, mas Gardimam acredita que ele pode cair para abaixo de 3% em uma nova revisão. A atividade econômica brasileira deve se desacelerar em 2012 devido: (i) ao menor crescimento da economia mundial, (ii) aos efeitos residuais da política monetária mais forte em 2011 e (iii) aos limites para uma atuação mais incisiva da política fiscal, diferente da ocorrida em 2008.  Será o menor crescimento do PIB dos últimos três anos.

“Mas isso não é o fim do mundo”, vaticina Gardimam. Contrariando o senso comum, ressalta, esse menor nível da atividade econômica não é negativo, pois permite ao país criar bases para um crescimento mais sustentável nos próximos anos, em torno de 4,5% a 5% ao ano.

Apesar de ainda turvo, o cenário está melhor. A inflação deve recuar no curto prazo, embora ainda não seja possível dizer se ela retornará para o centro da meta de 4,5% ainda em 2012. Gardimam acredita que a inflação deve ficar dentro do intervalo da meta, mas ainda superior ao seu centro no próximo ano.

Por outro lado, o economista afirma que, apesar de criticado ao iniciar o alívio monetário no final de agosto, o Banco Central (BC) reconquistou a credibilidade do mercado ao ter antecipado um cenário de menor atividade econômica que funciona como um redutor da inflação.

Segundo ele, em uma análise “bottom up”, ou seja, pegando-se os preços-alvo de cada ação que compõe o Ibovespa e multiplicando-os pelo peso de cada um dos papéis na carteira, o Ibovespa deveria superar os 80 mil pontos, o equivalente a um ganho potencial em torno de 30%. É lógico que não se espera valorização dessa magnitude em 2012, pois o cenário irresoluto das dívidas europeias funciona como um freio.

Contudo, como a bolsa ao longo de 2011 já incorporou aos preços itens como o aumento da inflação e as crises das dívidas soberanas, não seria exagero apostar em um Ibovespa na casa dos 69 mil em um horizonte de 12 meses. Uma rentabilidade atrativa vis-à-vis outros ativos financeiros. O Ibovespa encerrou a 58.196 pontos no dia 3 de novembro.

Adotar um otimismo cauteloso em nossos investimentos parece ser a estratégia mais apropriada no momento. Crises assustam, mas também ensinam. E a “geração cética” foi aluna assídua.

Veja o vídeo da entrevista com o economista-chefe e diretor da Bradesco Corretora, Dalton Gardimam, no portal do Valor.

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