| Postado por: Marcelo d'Agosto Seção: Investimentos

Aplicações cambiais voltam a render bem

Depois de um longo período de queda entre o começo de 2003 até o fim 2010, com perdas de mais de 50%, a cotação do dólar em relação ao real vem mostrando recuperação expressiva nos últimos 18 meses.

Os investidores que apostaram na alta da moeda americana no início do ano passado estão tendo poucos motivos para arrependimentos.

Entre janeiro de 2011 e junho de 2012 a valorização do dólar foi equivalente a 16,7% ao ano.

Surpreendentemente, o aumento ocorreu apesar do crescimento das reservas internacionais administradas pelo Banco Central, que passaram de US$ 298 bilhões para US$ 372 bilhões no mesmo período. De uma forma geral, a cotação da moeda americana guarda relação inversa com o volume de divisas estrangeiras que entra no país.

Em janeiro de 2003 as reservas internacionais do Brasil eram de cerca de US$ 40 bilhões. Em dezembro de 2010 haviam saltado para quase US$ 290 bilhões. O crescimento de 625% do montante das divisas no período foi inversamente proporcional à queda do dólar. Em janeiro de 2003 a cotação era de R$ 3,52 e fechou em dezembro de 2010 a R$ 1,65.

Para os investidores que anteciparam o descolamento recente da relação entre o aumento das reservas e a desvalorização do dólar, os ganhos foram expressivos. A rentabilidade nos últimos meses, por exemplo, superou com folga os investimentos em LFTs, títulos públicos atrelados à variação da taxa Selic.

Uma aplicação de R$ 100 na LFT com vencimento em 7 de março de 2017 — papel disponível para negociação no Tesouro Direto — feita no dia 3 de janeiro de 2011 valeria R$ 117,13 no dia 25 de junho de 2012. Se o mesmo valor tivesse sido convertido em dólares na mesma data inicial, seria equivalente a R$ 125,49 no fim do prazo do investimento.

Os ganhos das aplicações cambiais rivalizaram com o rendimento dos papéis indexados a índices de preços e prefixados. Esses foram os títulos que mais ganharam com a política de redução das taxas de juro iniciada com o corte da taxa Selic no fim de agosto de 2011.

Entre os papéis negociados no Tesouro Direto, a NTN-B Principal com vencimento em 15 maio de 2015 — indexada ao IPCA — teve rendimento de 27,5% entre janeiro de 2011 e junho de 2012. E a LTN com vencimento em 1º de janeiro de 2015 — prefixada — teve ganho de 28,1% no mesmo período.

A desvalorização do real, que proporcionou o ganho nas aplicações cambiais no Brasil, foi acompanhada por moedas dos demais países que formam o bloco dos BRICs. A rúpia da Índia cai cerca de 7% este ano, o rublo da Rússia tem queda de 2% e mesmo na China há uma pequena desvalorização de 1%, conforme dados da “Bloomberg”.

Uma das possíveis explicações para a queda conjunta das moedas dos Brics é a forma de atuação das diversas empresas estrangeiras estabelecidas na região. Muitas possuem aplicações financeiras relevantes nas moedas locais, mas seguem usando o dólar como moeda de referência. O objetivo é lucrar com a diferença de taxas de juros.

Em determinado momento, as multinacionais buscaram proteger os ativos que estavam investidos nas moedas locais.

A busca de proteção por meio da compra de dólares, tanto no mercado à vista quanto futuro, juntamente com operações de troca de indexadores no mercado de derivativos, acabou provocando pressões que elevaram a cotação do dólar.

Estratégias financeiras mais sofisticadas visando proteger o valor do faturamento e do lucro obtido pelas companhias estrangeiras em suas operações locais também podem ter contribuído. Com o objetivo de compensar as perdas no balanço ocasionadas pela conversão para o dólar das contas contábeis, estruturas de proteção complexas terminaram aumentando a demanda pela moeda americana.

Apesar da elevada rentabilidade no período recente, o risco da aplicação cambial foi alto. Os R$ 100 investidos no começo de janeiro de 2011 chegaram a valer R$ 92,94, subiram para R$ 115,18 e voltaram a cair para cerca de R$ 100 até chegar aos R$ 125,49.

Atualmente a aplicação em ativos atrelados à taxa de câmbio ainda pode ser rentável. Muitos analistas estimam potencial de valorização de 15% para o dólar de hoje até o fim do ano. No entanto, é fundamental ficar muito atento às oscilações no valor do investimento.

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