Os bancos públicos estão preparados?
Na quarta-feira passada, depois de esperar por duas horas, eu e minha filha conseguimos abrir uma caderneta de poupança na Caixa, numa agência localizada em um bairro da região central de São Paulo. A motivação era economizar para pagar por um passeio que estava sendo organizado pela escola e que ocorreria somente em setembro.
Tínhamos duas opções: ou fazíamos a reserva para a excursão imediatamente e, nesse caso, eu teria que desembolsar três cheques pré-datados de R$ 211, ou poderíamos deixar para fazer a inscrição no fim de agosto, pagando R$ 620 à vista. Evidente que, do ponto de vista financeiro, a melhor opção era pagar menos à vista, no fim de agosto.
Para estimular a organização das finanças pessoais e incentivar a poupança, propus que ela abrisse uma caderneta. Afinal, trata-se do investimento mais tradicional, simples e popular do Brasil.
Além disso, como a ofensiva do governo contra os juros altos e o sistema bancário privado estava no ápice, sugeri abrir a conta na Caixa. Contribuir de alguma forma com as ações do governo, alardeadas em todos os meios de comunicação, poderia ser, para uma menina de 11 anos, uma forma de estímulo adicional para o esforço de economizar e atingir o objetivo almejado.
Na vida real, apesar da agência vazia, os profissionais da Caixa envolvidos no atendimento estavam dedicados a esclarecer as dúvidas operacionais dos clientes. Questões relacionadas com o procedimento a ser adotado depois da perda ou bloqueio do cartão e formas alternativas para acessar a conta corrente sem a posse da senha dominavam o trabalho dos funcionários.
Depois de uma espera aceitável fomos finalmente atendidos. No entanto, o tempo necessário para o preenchimento do cadastro pelos funcionários da parte administrativa da agência demorou muito mais do que seria razoável. A pouca familiaridade dos atendentes da Caixa com os aspectos operacionais relacionados à abertura da conta poupança também surpreendeu negativamente.
Julgar toda a operação de um grande banco com base apenas em uma experiência individual não é uma avaliação justa. Os estudos sobre finanças comportamentais alertam para a chamada regressão à média.
Daniel Kahneman, em seu livro Thinking fast and slow, ilustra esse ponto com um caso sobre o treinamento de pilotos israelenses.
O fato de um instrutor constatar que um cadete melhorava o desempenho logo depois de ser criticado por fazer uma manobra ruim e piorar a atuação logo depois de ser elogiado não estabelece uma relação de causa e efeito. Não é a crítica que estimula nem o elogio que deixa o aspirante a piloto menos atento.
Existe uma razão mais prosaica para o comportamento errático dos pilotos. Enquanto estão em fase de treinamento e não dominam todas as manobras, é natural que, estatisticamente, alguns movimentos muito ruins sejam seguidos por outros muito bons, a despeito de ouvirem palavras de incentivo ou críticas desconcertantes.
É possível que situação semelhante tenha ocorrido na minha experiência com a abertura da poupança da Caixa. Pode ter sido por pura falta de sorte que tivemos que esperar por tanto tempo na agência.
Nos próximos meses, nossas visitas ao banco eventualmente poderão ser mais rápidas.
A despeito da percepção sobre o atendimento e a expectativa para o futuro, o fato é que, daqui para frente, é razoável esperar que o governo reduza a intensidade das críticas sobre os bancos privados.
De acordo com os dados do Banco Central, Banco do Brasil e Caixa, os dois maiores bancos públicos, possuem 34% do total de ativos do sistema financeiro. Os quatro maiores privados, Itaú, Bradesco, Santander e HSBC detêm participação de 47%. Os demais controlam 18% dos ativos.
A concentração do sistema indica que não é razoável a manutenção da política de bombardear de críticas a atuação das instituições privadas com a esperança de que as instituições públicas poderão suprir toda a demanda do mercado.
Ao contrário, o excesso de críticas pode gerar uma desestabilização do sistema bancário e, na pior das hipóteses, uma perda generalizada de confiança nas instituições financeiras.
Boa parte da crise internacional atual é decorrente da volta da desconfiança sobre a saúde financeira dos bancos globais.
A possibilidade da saída da Grécia da zona do euro, perdas não esperadas em instrumentos derivativos complexos e aumento da inadimplência devido à situação de baixo crescimento econômico ameaçam os balanços das instituições financeiras em várias partes do mundo, simultaneamente.
Por enquanto, o Brasil não convive com esses problemas. Uma das principais razões para a relativa solidez do sistema financeiro brasileiro é a concentração dos negócios em poucos e grandes bancos, em operações estritamente controladas pelo Banco Central.
Daqui para frente, para estimular a competição e melhorar o atendimento dos clientes, o governo deverá adotar atitudes mais efetivas.
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