4 | Postado por: Marcelo d'Agosto Seção: Juro

Prepare-se para a vida com juro real menor

Juro real é o resultado da diferença entre a taxa que o investidor recebe nas aplicações financeiras e a inflação. O indicador possui duas utilidades.

A primeira é avaliar se o investimento está preservando o poder de compra das economias ao longo do tempo. A segunda é estimar se o esforço de poupança está em linha com os objetivos do aplicador.

Quando o investidor encontra uma aplicação financeira que apresenta juro real positivo, tem o conforto de saber que o montante aplicado crescerá em ritmo acima da inflação. Na prática, significa o horizonte de que o poder de consumo representado pelo valor daquele investimento irá aumentar ano a ano.

Quanto maior o juro real, melhor para o aplicador, pois reduz o esforço da poupança. Suponha que um investidor tenha conseguido poupar metade do valor de um bem. Se os juros reais forem de 20% ao ano, como no período ente 1993 e 1996, basta investir os recursos e esperar quatro anos. Com os rendimentos da aplicação será possível comprar o bem inicialmente almejado.

Investimentos com juros reais compostos de 20% ao ano transformam o poder de compra atual de R$ 50 em R$ 100 depois de apenas quatro anos. Portanto, a esperada queda da taxa básica de juros (Selic), mesmo com um eventual cenário de inflação estável, é uma péssima notícia para o investidor.

Com os juros reais na casa de 3,5% ao ano (como é possível encontrar em alguns títulos disponíveis no Tesouro Direto) a solução é poupar mais ou adiar o consumo. Neste patamar de taxas, para conseguir fazer uma compra no prazo de quatro anos, o investidor terá que economizar 87% do valor do bem. Ou então esperar por vinte anos para fazer a aquisição.

Matematicamente, R$ 87 investidos por quatro anos, a juros compostos de 3,5% ao ano, rendem R$ 100. A alternativa é poupar R$ 50 por vinte anos, na mesma taxa, e receber R$ 100.

Faz tempo que o governo brasileiro remunera os aplicadores em títulos públicos federais com juros reais altos. A última vez em que a diferença entre a rentabilidade acumulada da taxa Selic e a inflação medida pelo IPCA foi negativa ocorreu em 1990, ano do Plano Collor. A penúltima foi em 1987, ano em que o presidente Sarney lançou o plano Bresser.

O histórico de planos econômicos malsucedidos, desequilíbrios estruturais e incapacidade para superar as crises externas foram as principais razões que obrigaram o governo brasileiro a praticar juros reais elevados por tanto tempo. Veja o gráfico dos juros reais desde 1991:

Para os investidores, a partir de 1991, o período foi de elevada remuneração com baixo risco. No segundo semestre de 2003, por exemplo, os aplicadores mais conservadores podiam comprar NTN-Bs - títulos corrigidos pelo IPCA - com vencimento em agosto de 2006 à taxa de 11% ao ano. Se a escolha fosse por manter as aplicações atreladas à taxa Selic e com liquidez diária, os ganhos depois da inflação seriam igualmente altos.

A contrapartida para os juros reais elevados pagos pelo governo foi a necessidade de adiar gastos públicos e aumentar a arrecadação, via elevação dos impostos. Essa política reduziu a capacidade de crescimento do país.

Apesar de os governos passados terem buscado reduzir os juros reais para estimular o desenvolvimento, as tentativas nunca deram certo. Mas os títulos públicos federais negociados no mercado apontam que, desta vez, pode ser diferente. A NTN-B Principal, com vencimento em 2015, era negociada com taxa de 5,17% ao ano no início de janeiro e caiu para 3,5% ao ano no começo de maio. O mais prudente é estar preparado para os novos tempos.

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As análises, opiniões, premissas, estimativas e projeções feitas neste blog são baseadas em julgamentos do consultor responsável e estão, portanto, sujeitas à modificações em decorrência de alterações nas condições de mercado. As opiniões contidas neste espaço podem não ser aplicáveis para todos os leitores devido aos diferentes objetivos de investimento e situação financeira específica. Este blog reflete as opiniões do autor e não do Valor Econômico. O Valor e o autor não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizados por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Toda e qualquer decisão de investimento baseada nas opiniões aqui expostas é de exclusiva responsabilidade do investidor.

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