O mal que os bancos fazem
Um crescimento rápido do setor financeiro deveria ser visto como um sinal de alerta e não saudado como saudável indicador de modernização e desenvolvimento. Apesar da teoria básica de que um sistema bancário avançado reduz custos de transações e permite a melhor alocação possível dos recursos da economia, que é parcialmente correta, a crise de 2008, que se estende de outras formas até hoje, colocou em xeque esse tabu. Quem faz a advertência não é um estranho no ninho dos bancos, mas Stephen Cecchetti, economista chefe do Departamento Econômico e Monetário do BIS, o banco central dos bancos centrais, em parceria com outro economista da instituição, Enisse Kharroubi . Conclusão deles: “Mais finanças nem sempre é o melhor”.
Os economistas reuniram dados de 50 economias avançadas e emergentes nos últimos 30 anos, e, também, de 21 países da OCDE, para construir seus modelos. Para seus objetivos, foram considerados tanto a fatia do crédito fornecida pelos bancos em relação ao Produto Interno Bruto como a porcentagem da força de trabalho empregada pelo setor financeiro e sua taxa de crescimento.
A primeira constatação foi a de que a partir de uma relação crédito/PIB perto dos 90% o impulso dos bancos aos empréstimos torna-se prejudicial para o crescimento da produtividade, medida pelo aumento do PIB por trabalhador em uma média quinquenal. Reduzir a relação crédito PIB nos Estados Unidos dos atuais 200% pela metade, por exemplo, acrescentaria 1,5% na eficiência produtiva do país, estimam os economistas. Já a Índia, onde a relação é de 50% hoje, ainda teria bastante a ganhar com o avanço do setor financeiro.
Em seguida, averiguaram a fundo o axioma claro, mas nem sempre considerado adequadamente, de que os bancos competem com os demais setores da economia por insumos, seja investimentos físicos em equipamentos e prédios, seja por mão de obra especializada — e essa alocação pode não ser a desejada ou a mais produtiva. “Indústrias de rápida expansão drenam recursos a taxas fenomenais”, dizem os autores. “É apenas depois do crash que se tem uma noção da extensão do excesso de investimento realizado”. Para eles, as consequências de um boom financeiro não difere dos da bolha da internet no final dos anos 90.
Eles apontaram no estudo que quando o setor financeiro usa mais de 3,5% da mão de obra total empregada o resultado é produtividade em baixa, e não em alta. Depois, ao medir o impacto do crescimento da taxa de emprego nos bancos nos países avançados durante três décadas, compararam a situação de um típico boom financeiro, com o avanço da mão de obra bancária de 1,6% ao ano, com casos em que o emprego do setor é estável. No primeiro caso, a produtividade agregada é 0,5% menor. Parece irrisório, mas não é — a média de crescimento da produtividade na amostra foi de 1,5% ao ano no período.
Esse último caso é ilustrado com os exemplos da Irlanda e da Espanha, apanhados em cheio pela crise da dívida soberana. Nos cinco anos decorridos desde 2005, o emprego no setor bancários cresceu 4,1% e 1,4% em média ao ano, ao mesmo tempo em que o produto por trabalhador declinou 2,7% e 1,4%, respectivamente. “Em outras palavras, o crescimento do setor financeiro é responsável por um terço do declínio do produto por trabalhador na Irlanda e por 40% da queda no caso da Espanha”, afirmam.
Cecchetti e Karroubhi estão longe de demonizar o setor financeiro, mas com a crise viram a necessidade de buscar uma nova relação entre finanças e crescimento. “A partir de níveis baixos, o crescimento do setor financeiro caminha de mãos dadas com um maior avanço da produtividade”, escrevem. “Mas chega um ponto — do qual as economias avançadas já passaram há muito tempo — em que mais bancos e mais crédito estão associados com menor expansão econômica”.
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