A crise por Mantega
O governo brasileiro está absolutamente atento à evolução da crise europeia que é tão forte quanto o que se viu em 2008/2009, mas a Europa não tem o Federal Reserve. Há três anos, o banco central americano usou todos os instrumentos possíveis para conter os efeitos à quebra do Lehman Brothers que desembocou na crise subprime. Lá atrás, foi constituído o G-20 que trouxe consenso e respaldo a uma ação, também rápida, de estímulos fiscais. E é um equívoco supor que os bancos europeus constituem um risco menor ao apresentado pelos bancos americanos naquele momento. Os bancos europeus ficaram na moita em 2008/2009, mas estão mais alavancados que os americanos e acumulam mais ativos tóxicos. A crise europeia não é trivial. A avaliação é do ministro da Fazenda, Guido Mantega.
“Os europeus discutem. Além disso, optaram por uma estratégia diferente. Fizeram um aperto fiscal. E isso torna esse episódio da crise iniciada em 2008 uma lenta agonia. Há três anos, foi morte súbita”, ponderou o ministro em entrevista exclusiva ao Valor na semana passada. Mantega explicou também a ação diferenciada do governo brasileiro em reação à crise nesses dois momentos. Em 2008/2009, a crise estourou. O BNDES colocou R$ 200 bilhões na economia. O Banco Central, R$ 100 bilhões representados pela liberação de recolhimento compulsório sobre depósitos bancários. Há cerca de três anos, a taxa básica brasileira estava em alta. Três meses depois do estouro da crise, o juro estava em 13,75%. A economia despencou a praticamente zero.
No atual estágio da crise, cujo epicentro é a Europa, a economia brasileira apenas desacelerou. “Em 2011 já sentíamos a crise chegando a crescimento e agimos. Hoje certamente estamos mais fortes que em 2008, até em termos de classificação de risco de crédito. Lá atrás, os bancos pularam fora. O crédito parou e o investimento sofreu”, pondera Mantega que indica não ser esse o cenário no momento, embora note o consumidor mais prudente.
O declínio dos juros no Brasil afetará a rentabilidade das aplicações financeiras e terá, sim, efeito importante para o setor produtivo, avalia o ministro, que alerta para a necessidade de investidores e empresas se adequarem a esse cenário de menos ganhos financeiros – com mais eficiência e produtividade.
O ministro lembra que nenhum país europeu sobreviveria se o refinanciamento de suas dívidas fossem feitos com juros pagos pelo Brasil. “Teriam quebrado. Nós enfrentamos uma equação muito perversa, que exige muito trabalho. Mas isso tudo é lastro para ser usado”, afirma.
Em tempo: o governo usará esse lastro na consolidação de uma agenda pautada por investimentos e crescimento.
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