Boca no trombone
Bancos e Banco Central mandaram recados respectivamente ao governo e ao mercado financeiro na segunda-feira. E um seleto time de analistas está refletindo sobre a dupla manifestação, levando em conta este momento particularmente desconfortável para governo e sistema bancário, que discutem redução de spreads enquanto instituições públicas anunciam maior oferta de crédito. E muito mais barato.
Enquanto a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) alertou, em boletim, para a necessidade urgente de se promover uma alteração nas regras das cadernetas de poupança, frente à desaceleração da inflação em março, ao cenário internacional incerto e à possibilidade de a Selic ficar abaixo de 9%, o BC, por meio do seu presidente Alexandre Tombini, reiterou no Jornal das Dez, da Globo News, que a Selic tem “elevada probabilidade” de cair próximo ao nível mínimo histórico, de 8,75% ao ano.
“Essa afirmação é de futuro e depende das condicionais da inflação, que vem caminhando conforme o esperado na nossa convergência; então, no momento, essa comunicação do Banco Central permanece válida”, disse Tombini na entrevista em que ele próprio reconheceu que as políticas do BC foram direcionadas para estabilizar a inflação. “E creio que estamos conseguindo atingir esse objetivo. Neste momento, os números indicam o acerto da política de combate à inflação, de trazer a inflação para o objetivo do BC, que é a meta de inflação de 4,5% ao ano”, afirmou Tombini.
A atenção dos analistas às declarações do presidente do BC aumentou com a publicação da entrevista no site da instituição – às 10 horas desta terça-feira. Essa divulgação foi recebida como sinal de interesse do BC de potencializar a indicação de Tombini para frear o movimento acelerado de corte da taxa básica abaixo de 9% - quadro delineado há dias no mercado futuro de juros.
Quanto à defesa de mudança no rendimento da poupança feito pela Febraban, analistas avaliaram em conversa com o blog que os bancos devem estar, sim, preocupados com a competitividade dos fundos de investimentos em relação à poupança (caso a Selic acabe declinando a 8,50% em algum momento). Mas eles também contemplam a possibilidade de a Febraban insistir num ponto politicamente delicado para o governo, que é a alteração de regras na poupança. Em 2009, quando foi configurada situação semelhante, de conflito entre o juro básico e a rigidez da remuneração da poupança que ameaçava se tornar vantajosa frente a outras aplicações, o então governo Lula não foi bem sucedido em mobilizar parlamentares a favor de mudanças na caderneta.
Thaís Fôlego, do Valor, relata em reportagem que, para a Febraban, não é difícil imaginar o desequilíbrio potencial do cenário que poderia levar a um fluxo significativo de recursos para as cadernetas e ao mesmo tempo escassez de funding em outros segmentos do mercado. “Teríamos excesso de exigibilidade, e com base em recursos de curto prazo, de um lado e escassez em outro. Certamente um desequilíbrio que precisa ser corrigido para viabilizar a continuidade da queda dos juros. E quanto antes melhor”, alerta a entidade em boletim divulgado ontem.
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