Blue Chip

Rodrigo Uchoa com Marcela Duarte

Boy's best friend

Postado por: Rodrigo Uchoa Seção: Consumo, Estilo de vida

Ricardo Benichio/valor / Ricardo Benichio/valor

Quando as portas do elevador se abrem, o pequeno e simples hall do 16º andar é de um silêncio só, contrastando com o trânsito caótico e barulhento da avenida Faria Lima lá fora - "trânsito caótico e barulhento" na cidade de São Paulo, afinal, é uma redundância dupla. As duas portinhas ali à frente dos elevadores não dão indicação do que haverá lá atrás. De repente, o som de abertura automática da porta de madeira ressoa, dando indícios de que alguma câmera já havia captado a presença da visita. É hora de entrar em um outro hall, só que esse de decoração mais apurada, coberto de mármore e espelhos. Uma pequena espera para abrir a outra porta - agora, sentindo o peso delas, dá para concluir que são blindadas. E aí sim, finalmente está a recepção, onde uma funcionária muito solícita encaminha o cliente para uma grande sala de estar rodeada de vitrines cheias de exemplares de grandes marcas internacionais de relógios - como Cartier, IWC, Baume & Mercier, Breitling etc. - e algumas joias de linha própria.

O comprido sofá de couro preto no centro dá mais a impressão de que é mais um clube do que uma "loja". É um endereço exclusivo, que a joalheria Grifith nem publica em seus anúncios. "Os clientes aqui querem privacidade, querem conversar à vontade, sem pressão", afirma Clineu Capelossi, diretor da Grifith. O trabalho ali envolve muito de psicologia, diz ele. "Às vezes a pessoa não compra nada, mas passa horas falando da vida, contando segredos. É quase como uma terapia mesmo."

Pois essa "cumplicidade" acabou criando um serviço diferente na Grifith. Muitos clientes deixam seus relógios antigos para serem vendidos lá. "Tudo começou quando um dos nossos mais fiéis clientes estava em dúvida quanto a comprar ou não um relógio novo. Afinal de contas, ele já tinha uns 30 e disse que se chegasse em casa com outro sua mulher o mataria. Aí eu disse a ele que venderia alguns dos antigos e abateria o valor da venda no preço do novo. Surgiu então um negócio com vida própria", conta Ricardo Ramos, o Cacá, um dos sócios da joalheria. Pois Cacá tem casos curiosíssimos sobre esse assim chamado "clube do relógio".

"Uma vez um cliente encomendou um relógio de modelo raríssimo, de dezenas de milhares de dólares. Demoramos um tempão atrás daquele modelo até conseguirmos. O cliente obviamente ficou satisfeitíssimo, mas poucas semanas depois apareceu aqui para comprar mais um relógio e nos deu aquele outro para vendermos. Já tinha se cansado dele."

Hoje, a loja exclusivíssima da Grifith tem uma sala só para os relógios usados. Vê-se ali um Patek Philippe reluzente que pode alcançar a centena de milhar de dólares ao lado de um Ulysse Nardin que pode superar as duas centenas de milhar. Fileiras de Rolex, Panerais, IWCs e Bulgaris. Um dos exemplares ainda tinha as proteções de plástico na trava da pulseira. Como se explica isso?

"O desejo das pessoas é algo muito interessante. O desejo de comprar era irresistível para o dono desse relógio. Depois de satisfeito esse desejo, o objeto quase que perdeu totalmente o valor para ele."

A Grifith é o resultado da união de três profissionais que fizeram suas carreiras na Nathan e que depois deixaram a joalheria para abrir o próprio negócio. A eles se juntou depois Clineu Capelossi, que por muitos anos trabalhou para a Cartier. Hoje, eles estão em uma fase de franca expansão.

Tornaram-se representantes da IWC e, além da loja no shopping Cidade Jardim, abriram no mês passado uma filial no shopping Iguatemi-Brasília. São refratários a falar de números, mas parece que os negócios estão indo bem, não é?

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