O ocaso de um gigante...
FRANKFURT - No passado, ele esteve em posição de destaque, com muitas honras, do fabricante e do público. Era fácil notá-lo. Num simples giro do olhar, surgia, imponente, com as portas sempre abertas. Os fãs se postavam diante dele, sonhando em driblar a segurança e poder jogar-se nos assentos de couro, sempre em tons claros, tão reclinados como a poltrona da primeira classe de um avião. E ali poder desfrutar dos mimos incluídos na apresentação, como a taça de champanhe, sempre colocada sobre o descanso de braço.
O Maybach, automóvel de luxo do grupo Daimler, perdeu o espaço que costumava ocupar nos salões de automóveis internacionais. Na edição da exposição de Frankfurt, aberta ao público a partir de hoje, ele aparece de forma mais discreta, num canto escondido do suntuoso estande que a Daimler ocupa na maior feira de automóveis do mundo.
As portas do carro estão fechadas, escondendo o interior de glórias do passado. É possível que os antigos apreciadores sequer o notem. Mas a concorrência é quase desleal. Sob apelos da causa ambiental, os holofotes se voltam desta vez para a grande área reservada para o Smart, outra marca do grupo Daimler, que traz uma proposta totalmente oposta: carro minúsculo, transformado agora em versão elétrica.
Na exposição deste ano em Frankfurt, várias unidades do Smart foram espalhadas e penduradas. O miniautomóvel tem agora uma companhia: a bicicleta elétrica Smart que a montadora preparou para ser acoplada na traseira do pequeno automóvel. Diante de tanta modernidade, o Maybach até parece uma lembrança triste dos tempos de glória.
Não se trata só de concorrência desleal. A marca Maybach está, de fato, na berlinda. E o fabricante não sabe o que fazer com ela. Quando questionado sobre o assunto, em entrevista a um pequeno grupo de jornalistas, esta semana, Dieter Zetsche, presidente mundial da Daimler, foi sincero.
"Hoje não temos uma decisão. Mas no futuro teremos. Estamos chegando perto de uma direção nesse sentido. Só sei que não quero perder mais um carro." Altamente respeitado pela comunidade automotiva mundial, Zetsche até mudou o semblante quando a conversa chegou no futuro do Maybach.
Ele ficou sério e triste.
Dieter Zetsche refere-se claramente a diversos traumas de perdas no passado, principalmente nos tempos de parceria com a Chrysler. O executivo também indica que a empresa estaria em busca de uma solução interna para evitar a venda da marca, como se cogita no mercado.
Seja como for, o jeito de carrão de quem só anda com chofer do Maybach ostenta parece não combinar com os dias de hoje, principalmente na Europa, onde os governos começam a impor multas e restrições aos veículos menos econômicos.
Com preços a partir da faixa dos € 300 mil, duas versões - uma com 5,2 metros e outra com 5,7 metros - o Maybach viu seus dias de glória desaparecer junto com a demanda. O volume de vendas não passa hoje de 200 unidades por ano.
Um ícone na década de 30, o modelo deixou de ser fabricado depois da Segunda Guerra. Ganhou prestígio quando voltou a entrar na linha de produção em 2002, com a Daimler, empresa cujo fundador foi amigo de Wilheim Maybach, um alemão que se especializou na fabricação de máquinas nos anos 1870.
No seu retorno ao mercado, as vendas anuais chegaram a mil unidades. Pode ser que nos novos tempos, o pequeno Smart faça mesmo sombra para o Maybach. Mas quem visita o salão de Frankfurt atentamente notará que outro carrão concorrente ainda desfruta de muito prestígio.
Na gigante feira, num pavilhão distante do estande da Daimler, destacam-se reluzentes Rolls Royce, nos quais apontam muitos holofotes. Só que ali a champanhe não está dentro dos carros. É servida, gelada, a convidados muito especiais numa área reservada do estande. (Marli Olmos, de Frankfurt)



