Miniaturas do mundo

Divulgação / Divulgação
"Grande Veleiro": interesse por Bispo do Rosário, segundo curador, existe principalmente porque ele "cumpre o único sentido que deve ter o objeto de arte: fazer sonhar"

Durante os 50 anos em que esteve internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio, Arthur Bispo do Rosário produziu mais de 800 obras a partir de restos deixados aqui e ali, como botões, sapatos, talheres, canecas, embalagens, linhas desfiadas dos próprios uniformes. Sua missão lhe havia sido revelada pouco antes do Natal de 1938: ele precisava reorganizar o mundo, copiando-o em suas miniaturas, para apresentá-lo a Deus no dia do juízo final. Nascido em Juparatuba (SE) em 1909 ou 1911, dependendo do registro, foi diagnosticado como esquizofrênico paranoide. Pobre e negro, viveu sempre à margem, confinado no manicômio, sem visitar ou conhecer a arte que se produzia em sua época, sem mesmo saber que estava fazendo arte. Ainda assim, desde que foi objeto de uma reportagem de Samuel Wainer Filho para o "Fantástico", em 1980, e sua obra exposta oficialmente pela primeira vez no Brasil, em 1982, e na Bienal de Veneza de 1995, só amplia sua conquista do mundo das artes.

Neste ano, Bispo é a atração principal da 30ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, que será aberta oficialmente em 7 de setembro no Parque do Ibirapuera, e tema de exposição individual no museu Victoria & Albert, em Londres, a ser inaugurada no dia 13.

Desde o momento em que começou a pensar na bienal deste ano, o curador Luis Pérez-Oramas teve o desejo de pôr o artista, morto no Rio em 1989, no centro do evento - serão cerca de 260 peças espalhadas em 300 metros quadrados. "Achava interessante trazer para a bienal as produções simbólicas. Aquelas que não foram feitas se assumindo como arte, mas em razão da necessidade absoluta do artista, para poder construir e sobreviver na lógica existente", disse o venezuelano ao Valor. "A arte virou refém do reducionismo intelectual, que não a entende como pulsão existencial", completou.

Já para Wilson Lázaro, curador da mostra londrina e do Museu Arthur Bispo do Rosário, no Rio, a crescente atenção internacional vem justamente dessa marginalidade. "Esse interesse, na minha opinião, é por ele realizar uma produção que rompe com a academia de arte e cumpre o único sentido que deve ter o objeto de arte: fazer sonhar. Bispo consegue isso claramente", afirmou. "Seu trabalho tem caráter universal, ultrapassa a barreira das fronteiras territoriais e da linguagem."

A exposição no Victoria & Albert faz parte da Olimpíada Cultural, realizada na capital inglesa paralelamente aos Jogos Olímpicos. Traz 80 trabalhos relacionados ao esporte. "O artista criou um conjunto de 804 obras, o que permite à curadoria criar vários caminhos conceituais para mostrar sua obra. O conceito e a exposição estão divididos em quatro partes: o movimento, o universo, o tempo e o vento", explicou Lázaro.

Entre os destaques estão o conjunto de 40 faixas de miss e uma roupa-objeto, nunca antes exibida, restaurada pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio especialmente para a ocasião. Para Tim Travis, representante do museu, os materiais e processos usados por Arthur Bispo do Rosário ressoam algumas das coleções da instituição, como têxteis, bordados, esculturas e "assemblages". "Seu trabalho também se relaciona de forma curiosa com algumas das preocupações temáticas do V&A: o Brasil, uma das prioridades internacionais no momento, a arte da diáspora africana, a interseção entre as artes visuais e a manufatura, a arte de praticantes fora da linha acadêmica ou "avant-garde" e a cultura inspirada pela fé e pela espiritualidade", explicou.

Os trabalhos de Bispo valorizam muito a palavra - seus mantos, veleiros, vitrines, estandartes e faixas de miss contêm inscrições bordadas, nomes de pessoas e lugares e frases vindas de jornais e episódios bíblicos, o que se encaixa numa das propostas da bienal intitulada A Iminência da Poética. "Ele mostra como a palavra costura ideias, coisas, figuras e pensamentos. Ele as usa como tentativa de costurar as fraturas que marcam a existência humana, o sonho e a realidade, o passado e o futuro. Bispo é marcado para a doença mental que é coletiva - todos nós somos esquizofrênicos", disse Pérez-Oramas. A obra do artista também servirá como ponte com outras áreas. "O mundo das artes está cada vez mais confinado. É um mundo decupado e disciplinado, cada vez mais fechado ao que acontece fora. O objetivo da 30ª Bienal é abrir o diálogo entre as artes visuais e o que está fora", afirmou.

Apesar desse interesse dos últimos anos - suas obras foram expostas no Jeu de Paume, em Paris, em 2003, e fizeram parte da Bienal de Lyon, no ano passado -, Pérez-Oramas ainda acha que existe um caminho longo a percorrer para que Bispo seja considerado como deve. "Os anglo-saxões têm mania de considerar uma arte legítima e uma arte de fora; é uma categorização estúpida, ridícula, que não compartilho. Não importa se o artista foi treinado academicamente ou não. Os gregos seriam considerados 'outsiders' hoje", observou o curador.

Durante muito tempo, a obra de Bispo do Rosário foi comparada à de nomes consagrados da arte contemporânea, como Marcel Duchamp, Andy Warhol e até do também brasileiro Hélio Oiticica - como se, só assim, tivesse valor. "Sem precisarmos reafirmar a inclusão da obra de Bispo entre as obras de arte via conexão dela com outros 'grandes nomes' (...), podemos ler seus mantos, seus 'objetos de limpeza', veleiros, os Orfa [Objetos Recobertos por Fio Azul], suas vitrines (ou 'assemblages', como as denominaram alguns críticos desde os anos 1980), sua 'Roda da Fortuna', seus estandartes, sua cama-nave, seus fichários e todo o seu arquivo do mundo como obras que simplesmente dialogam com a história da arte", escreveu Márcio Seligmann-Silva em artigo de janeiro de 2009. "Ou seja, as obras de Bispo agora já têm um espaço conquistado e não precisamos mais nos deter no seu aspecto de 'repetição' (que, na verdade, não repete nada) do passado."

No Brasil, ficou em segundo plano em relação a Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape. Segundo Pérez-Oramas, ele é uma das grandes figuras das artes brasileiras. "Encarna a necessidade da existência da produção, não do negócio. E sua obra é enorme, belíssima, complexa, sublime, extraordinária", afirmou o curador, destacando a influência de Bispo sobre outros artistas, como Leonilson e Leda Catunda.

Talvez esse reconhecimento aquém do merecido tenha a ver com o fato de Bispo do Rosário não se inserir no mercado. "Suas peças nunca foram comercializadas. Todo esse conjunto está guardado e sob os cuidados da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil da Prefeitura do Rio", explicou Wilson Lázaro. Quase todos os trabalhos foram tombados definitivamente em 1994, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural do Rio de Janeiro. "Existem umas três obras com algumas pessoas", disse o curador do Museu Arthur Bispo do Rosário, sem revelar quem são. "Gostaria de vê-las no museu. Já conseguimos duas, uma colagem e um desenho." Na sua opinião, caso algum de seus trabalhos fosse leiloado, seria por um valor significativo. "Elas são objetos de desejo de muitos colecionadores e instituições pelo mundo." Mas não se arrisca em chutar valores.

Pérez-Oramas acha bom não existir circuito nem economia, mas sabe que também é um problema. "Na lógica da cultura pós-capitalista, a arte se mede pelo que custa e pelo que vale. Só que essa equação não funciona com o Bispo, pois suas obras têm valor precisamente pelo fato de ser insubstituíveis."

Numa realidade em que os artistas são considerados pela soma que alcançam nos leilões e pelo conceito intelectualizado por trás de seus trabalhos, Arthur Bispo do Rosário continua tão à margem quanto nos anos em que produziu, alheio ao que acontecia no mundo exterior. "Um ser que não teve ateliê nem incentivo por parte do meio construiu uma obra impulsionado por seu interior de uma extrema contemporaneidade, rompendo e pondo em questão os próprios meios de que a arte se faz", escreveu Luiz Carlos Mello no catálogo da "Mostra do Redescobrimento", de 2000. Pérez-Oramas acrescenta que se trata de "uma obra verdadeiramente capaz de abraçar a realidade complexa, mas feita no isolamento absoluto, quase eremita". Em suma, desafiadora de qualquer categorização e, por isso, única.

Oferta especial para assinar o Valor

Minimizar Fechar

Usuário, preparamos uma oferta especial para que você tenha acesso ilimitado aos conteúdos e serviços exclusivos do Valor.

Assine o jornal impresso + edição digital por 12 meses com desconto de 40% e ganhe um mês a mais grátis.

12x R$62,90 Assine