Standards à moda "Crazy Horse"

AP
Young (à dir.) e a banda The Crazy Horse, com quem não trabalhava desde 2003: uma associação que rende improvisos e distorções

Difícil para os fãs moderados ficar em dia com a discografia de Neil Young. O bardo canadense trabalha em ritmo "non stop". Como um Woody Allen da música, lança álbuns de estúdio numa média anual, entre infindáveis volumes de sua série de "bootlegs" oficiais, a "Archives". O mais interessante dessa produção é que Young raramente (ou nunca) decepciona. Alguns discos podem ser menos inspirados que outros, mas todos entregam uma meia dúzia de boas canções - ocasionalmente brilhantes.

Tratando-se de uma coleção de chavões do folk e da "country music", "Americana" nos faz supor que Neil Young finalmente acionou o piloto automático; que volta apenas para cumprir sua agenda. Isso até descobrirmos que, na verdade, os presentes "covers" são composições inéditas (em grande parte).

O mote de "Americana" é devolver o contexto original de "standards" há muito vulgarizados; canções que outrora refletiram sérios dilemas ou períodos amargos da história dos Estados Unidos, mas com o tempo foram reduzidas ao impacto de "jingles" publicitários. Young teve a astúcia de perceber que, para tal objetivo, não bastaria reproduzi-las nas versões tais como são conhecidas. Seria preciso reinventá-las para aguçar a imaginação dos ouvintes.

Um exemplo perfeito é "Oh Susannah", faixa que o mais leigo conhecedor de "country music" deve saber de cor. Neil Young subverte inteiramente a melodia; elimina os versos mais frívolos. O resultado é um rock empoeirado de grande densidade dramática, que toma emprestado elementos do clássico "Venus", do Shocking Blue. "Clementine", também conhecida como "Oh My Darling Clementine", passa por similar transformação. A história da garotinha que morre afogada nunca soou tão trágica e desesperada quanto na voz de Young.

Divulgação

Em alguns casos, o compositor prefere respeitar os fonogramas originais. Seria um sacrilégio, afinal, tomar para si a politizada canção de Woody Guthrie "This Land Is Your Land", espécie de "As Vinhas da Ira" (obra-prima do escritor John Steinbeck) do cancioneiro americano. Outro exemplo é "Wayfarin' Stranger", cujo teor "dark" dispensa intervenções - a letra é narrada pela perspectiva de um moribundo desenganado, vislumbrando sua "travessia", por assim dizer.

Os fãs também ficarão gratos pelo reencontro de Young com sua mítica banda de apoio, o Crazy Horse. A associação é sempre sinônima de improvisos e fartas camadas de distorção. Eles não trabalhavam juntos desde "Greendale" (2003). (LBH)

"Americana"

Neil Young & The Crazy Horse Reprise Records (importado) / AA+

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

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