Jonathan Franzen deve levar boas doses de humor e autoironia à Flip
PARATY - Sim, Jonathan Franzen é do tipo que não gosta de festa, abotoa a camisa (xadrez) até o penúltimo botão e tem como hobby observar pássaros – que foi, aliás, sua principal atividade ontem, 5/7, enquanto as ruas de Paraty (RJ) fervilhavam com o início da 10ª edição da Flip (Festa Internacional Literária de Paraty). Isto posto, são grandes as chances de que a plateia ria muito durante a palestra que o escritor americano apresentará hoje, às 19h30, na Tenda dos Autores. Capaz até que ele ganhe a fama de ser um cara divertido.
“As pessoas deprimidas são as mais engraçadas”, diz Franzen, dando a pista para seu tipo de humor, ácido e irônico. Na entrevista coletiva realizada ontem, na Pousada do Ouro, fez rir ao revelar o próprio desconforto com a situação. “Não gosto de festas, e que festa bem estranha nós temos aqui, bebendo nossa... água”, comentou. “Passei o dia na floresta e agora tenho pessoas ao meu redor. Ouvindo as coisas que estou dizendo...”
Surge, é claro, a pergunta sobre a capa da revista "Time" que, em agosto de 2010, trouxe uma foto de Franzen com o título "Great American Novelist". O que mudou na semana seguinte à publicação? "Imediatamente, um monte de gente, que munca tinha tido motivos para não gostar de mim antes, passou a não gostar de mim", ri o autor. "Escritores são muito invejosos." Outra mudança: passou a ser reconhecido em locais como aeroportos. "As pessoas diziam: 'Eu sei quem você é'. Mas isso não acontece mais. As pessoas têm memória curta. Bom, menos os escritores."
Alguém questiona por que o tema “família americana de classe média” é tão recorrente em sua obra. “Falta de imaginação”, diz Franzen. Mais risadas, e todos aguardam o resto da resposta, que não vem. Após alguns instantes de silêncio, Franzen ri: “Você quer mesmo que eu continue?”. Sim. “Essa é uma das perguntas que ouço com mais frequência, e eu tenho umas dez versões de resposta que vou revezando. Mas vou tentar dar uma diferente desta vez.” Sua teoria é a de que há um tipo de autor - "e é o tipo de que mais gosto, talvez porque me incluo entre eles" - que passa a vida inteira debruçado sobre um mesmo tema. “Alice Munro, por exemplo, passou anos escrevendo a mesma história. E é preciso ler cada uma dessas histórias, porque, ao mesmo tempo, é sempre uma coisa diferente”, diz Franzen.
O que o motiva a começar um novo livro, conta, é o encontro com um personagem pelo qual se apaixone. E uma das características necessárias para isso é que o personagem viva um conflito: “Quero ser rico, mas quero ser uma boa pessoa; quero ser leal, mas também quero me divertir”. A partir daí, o trabalho consiste em criar uma história na qual esse conflito possa vir à tona e se desenvolver.
E o que acontece quando ele não gosta de um personagem? “Eu tive um problema técnico com isso em ‘Liberdade’”, lembra o escritor. Ele antipatizava com um dos personagens principais, Joey, um jovem cuja orientação política era republicana. A solução, diz o autor, foi começar a imaginar as piores coisas que poderiam acontecer na vida do personagem. “Basicamente, eu o torturei”, conta, rindo. “E aí comecei a gostar dele.”
Republicanos, democratas... Embora Franzen fale de política com frequência durante a entrevista, ele conta que, quando começa a escrever, tenta manter suas opiniões “do lado de fora da porta”. “Não dá para fazer todos os personagens democratas bonzinhos e os republicanos maus só para provar um ponto”, diz. "Como romancista, você tem uma escolha: ou você serve ao leitor ou a sua agenda política. Além disso, eu não acredito que algum leitor vá mudar seu posicionamento político só porque leu um livro meu."
Também não acha que a literatura seja um espaço para a defesa de causas sociais – nem que essa causa seja a defesa de aves em risco de extinção, ressalta. A “função social” da literatura, em sua opinião, é proporcionar às pessoas a possibilidade de um encontro com elas mesmas. “Hoje, você não precisa passar um tempo com você mesmo se não quiser, porque alguém posta algo na sua página no Facebook, alguém quer que você leia uma coisa 'muito importante' que tuitou, ou simplesmente porque você tem e-mails demais para responder. Você consegue ficar muito ocupado com seu smartphone ou algo do tipo”, diz. “Nos Estados Unidos de hoje, você tem que ser energético, animado, aparecer nas mídias sociais. É um ambiente que não é favorável aos deprimidos. O deprimido não quer saber de se expor nas redes sociais.”
Além da apresentação de Jonathan Franzen, a programação da Flip conta com quatro mesas hoje. A primeira, às 10h, é sobre Carlos Drummond de Andrade, o homenageado desta edição. Antonio Carlos Secchin e Alcides Villaça falarão na mesa “Drummond – O Poeta Moderno”.
Ao meio-dia, os amigos Stephen Greenblatt, que venceu o Pulitzer de não ficção deste ano com o livro “A Virada”, e James Shapiro, autor de “Quem Escreveu Shakespeare”, participam da mesa “O Mundo de Shakespeare”. “É engraçado viajar até aqui para falar com alguém que mora perto de mim”, brincou Shapiro ontem.
Às 15h, ocorre a mesa “Exílio e Flânerie”, com o americano Teju Cole e a brasileira Paloma Vidal.
Em seguida, às 17h15, o poeta sírio Adonis e o libanês Amin Maalouf se apresentam na mesa “Literatura e Liberdade”.

