Tudo por um palco

Simon Dawson/Bloomberg / Simon Dawson/Bloomberg
Blair: trata-se de dinheiro, poder, religião, ou apenas desejo de permanecer relevante, de ser o centro das atenções?

Cinco anos após deixar o poder, Tony Blair quer voltar. Está pronto para assumir um novo grande papel. Mas o que, exatamente, o motiva? E conseguirá persuadir o mundo a ouvi-lo?

Algumas pessoas diriam: "Ele amava o poder, ficou no topo do mundo por dez anos e agora quer ficar no topo do mundo dos negócios; ele é muito competitivo, por isso nunca passa a bola; ele adora marcar os gols".

Tony Blair: Isso não é verdade! Isso realmente é uma mentira, quem está dizendo isso a você está mentindo. Isso não é verdade. Tragam-me meu advogado! Tragam meu caríssimo advogado americano.

Mas você é muito competitivo.

Blair: Olhe, sou sim muito competitivo.

E gosta de faturar muito dinheiro.

Blair: Essa ideia de que quero ser milionário, ter um iate, eu não! Nunca farei parte dos super-ricos. Não tenho nenhum interesse nisso tudo [exasperado].

Mas é difícil conciliar os desmentidos de Blair com os milhões de libras que ele ganhou desde que deixou Downing Street, menos ainda com o círculo de amigos super-ricos que ele tem agora, de que fazem parte os Murdoch, um diversificado leque de evangélicos americanos e potentados do Oriente Médio. Então, quais são exatamente as motivações de Tony Blair, cinco anos após ter relutantemente deixado o posto de primeiro-ministro em 27 de junho de 2007, após uma década no poder? Trata-se de dinheiro, poder ou religião? (publicamente, ele se converteu ao catolicismo após deixar Downing Street). Ou trata-se de algo mais básico: o desejo de permanecer relevante, de ser o centro das atenções?

Ao deixar o poder, aos 54 anos, Blair rejeitou os conselhos de Bill Clinton para que parasse um pouco e, em vez disso, lançou-se em diversos papéis: filantropo, estadista, mediador e articulador financeiro. "Não queria sair, mas tendo saído, não quis assumir o papel de aposentado." E emenda, defensivamente: "Não vou ficar no circuito enfadonho das palestras, contando piadas sobre como eram as reuniões com a rainha no Palácio de Buckingham".

As atividades de Blair podem ser encontradas no site The Office of Tony Blair: African Governance Initiative, Office of the Quartet Representative [Blair representa os quatro negociadores para o Oriente Médio: ONU, Rússia, Estados Unidos e Europa], Tony Blair Faith Foundation, Tony Blair Sports Foundation, Breacking the Climate Deadlock. Estão notavelmente ausentes quaisquer referências à Tony Blair Associates, nome comercial de seu serviço de consultoria empresarial.

Alguns dos amigos mais próximos de Blair dizem que ele atua em um número excessivo de frentes. "Ele não tem foco", diz um deles. "Alguém precisa dizer-lhe isso - mas agora não há mais ninguém em torno capaz de fazê-lo." Esses amigos, que não quiseram ser citados, preocupam-se, especialmente, com que os diversos papéis de Blair são um convite para conflitos de interesse, especialmente quando se trata de receber dinheiro de governos despóticos, como o do Cazaquistão. "Há sempre uma linha tênue a ser traçada entre o que é correto e as coisas para as quais você tem de fechar os olhos", diz uma personalidade importante do Partido Trabalhista.

Logo após ter deixado o cargo, Blair aceitou o convite para fazer parte do conselho consultivo internacional do JP Morgan. O banco de investimentos de Wall Street agora paga a Blair cerca de 2,5 milhões de libras por ano (ele se recusa a fornecer um número exato). Em troca, dá palestras e fornece "consultoria estratégica" a clientes "prime" e ao "board" do banco. Cada palestra lhe rende até US$ 300 mil, dependendo do lugar, segundo auxiliares. Ao contrário de Clinton, Blair recebe pagamentos diretamente dos governos, e não é obrigado a divulgar os valores (como deveria, sob a lei americana). Também é diretor uma lucrativa consultoria de negócios, fazendo apresentações, abrindo portas e ganhando um percentual em todos os negócios futuros.

Blair usa suas iniciativas empresariais para subsidiar seu trabalho filantrópico, que, segundo assessores, consome mais de 50% de seu tempo: "Vou ser absolutamente claro. O objetivo desses negócios é gerar valor. Como, então, uso o que ganho, você sabe [só diz respeito a mim]... a parte realmente importante, para mim, é a construção de alicerces de fato relevantes. Mas, com certeza, Blair está se iludindo, sugiro. Governos como os do Cazaquistão e do Kuwait não estão realmente interessados em mudanças; só estão interessados em fazer parecer que há mudanças. Na verdade, ex-colegas em Downing Street, como Alastair Campbell e Tim Allan, que dirige a agência Portland PR, estão agora embarcando com ele no trem da alegria do Cazaquistão. "Não, não é assim", diz Blair, citando valiosos conselhos sobre reforma judicial, descentralização, cidades focadas em um setor especializado de atividades e governos locais, a mesma agenda de reformas abraçada pela União Europeia UE). "O objetivo disso não é ganhar dinheiro, é fazer diferença".

"Não vou ficar no circuito enfadonho das palestras, contando piadas sobre como eram as reuniões com a rainha", diz Blair

Blair parece mais sensível do que quando esteve no poder e faz questão de evitar qualquer impressão de impropriedade. Diz pagar uma alíquota de 50% de imposto de renda, a mais alta do Reino Unido. Foi aconselhado por contadores da KPMG a criar uma companhia limitada, o que garante que seus negócios possam permanecer confidenciais. Mas afirma que isso nada tem a ver com evasão fiscal. "Gastamos uma fortuna com advogados e contadores para assegurar que tudo esteja inteiramente em conformidade com a lei."

Atualmente, Blair emprega mais de 150 pessoas em sua firma e em suas fundações. "Esse número vai crescer bem mais nos próximos cinco anos, se eu não deixar isto para fazer outra coisa". A ressalva é reveladora: por mais envolvido que esteja em seu trabalho ("mais do que nunca em minha vida"), apesar dos milhões que está ganhando, por mais milhas aéreas que esteja acumulando, Tony Blair ainda ambiciona o poder e o prestígio conferidos por um cargo público.

Pergunto como ele vê seu histórico no governo. Diz que deveria ter sido bem mais radical, especialmente na reforma dos serviços públicos. "Sobre o Oriente Médio, tenho um entendimento muito mais profundo sobre quais são os problemas... de que a política é profundamente afetada - de uma maneira que eu compreendia um tanto superficialmente, mas não com suficiente profundidade - pelas questões religiosas".

Blair agora divide o mundo moderno entre os de "mente aberta e de mente fechada". Essa divisão é tão importante quanto o velho embate ideológico entre esquerda e direita. O novo campo de batalha é o Oriente Médio, entre os dispostos a enfrentar seus problemas e aqueles que atribuem a culpa desses problemas a "algum tipo de opressão ou indignidade a eles impostas por outros".

De que forma sua nova visão se aplica ao Afeganistão e ao Iraque, onde, junto com seu íntimo aliado presidente George W. Bush, ele desfechou duas guerras por escolha [não por necessidade]? " Está muito claro agora que o problema é que, quando você destampa esses regimes opressivos e profundamente ditatoriais, jorra uma quantidade imensa de veneno religioso, tribal, cultural, étnico, que é então multiplicado pelas facções, na região, envolvidas nos dois campos dessa batalha entre modernização e atavismo." Mas isso é exatamente o que um pequeno exército de especialistas lhe dizia, reservada e publicamente, antes da invasão do Iraque. Blair reconhece que as críticas ao fato de as invasões terem aberto as comportas de rivalidades sectárias são "absolutamente justas", mas não enfraquecem nem as justificativas para a derrubada de Saddam nem sua argumentação geral: de que a era dos ditadores seculares acabou e que o Ocidente não pode permitir que o vácuo de poder que se seguiu seja preenchido pelo islamismo radical.

Na opinião de Blair, essa lição se aplica ao Iraque, e também ao Egito, Líbia, Síria e outros países convulsionados pela Primavera árabe. Ele defende mudanças evolutivas, para induzir os ditadores a renunciar, em vez de instigar revoluções populares. Essa perspectiva, ele agora admite, provavelmente nunca existiu na Líbia do coronel Khadafi e evaporou-se na Síria do presidente Assad. Por isso, é hora de considerar intervenções não mais segundo o modelo aplicado ao Iraque, mas "diplomacia vigorosa associada ao uso criterioso de força", para proteger a população civil e criar espaço para reforma econômica e política.

Mudamos, então, o foco para o Reino Unido atual e para sua relação com a Europa continental, que Blair acredita estar num ponto de inflexão histórico. A crise da zona do euro obrigará a UE a entrar numa nova fase de integração, e o Reino Unido precisa estar na mesa de negociações. Ele propõe um "grande pacto", em que a Alemanha concorde em defender o euro mediante mutualização da dívida e admitindo inflação em sua economia. Em troca, os países devedores, como Grécia, Itália e Espanha, precisam aceitar as regras rigorosas em matéria de déficits públicos e profundas reformas no mercado de trabalho, pensões e assistência social.

Tudo isso deve vir acompanhado por um compromisso em relação ao crescimento. A concepção original era imperfeita, Blair reconhece, mas um grande acordo pode corrigi-la. Na realidade, acrescenta, mesmo se o atual clube de 17 sócios sofrer um colapso, o euro sobreviverá porque a lógica por trás de sua criação é mais poderosa do que nunca.

"A 'rationale' para a Europa, hoje, não é a paz, é o poder. A justificativa para a Europa hoje é que [estamos] numa paisagem geopolítica em rápida mutação, em que mesmo um país do tamanho da Alemanha, que dirá da França ou do Reino Unido ou da Itália, é uma fração da dimensão do que serão os principais atores geopolíticos. Não podemos nos dar ao luxo de permanecer isolados. Precisamos de força coletiva para defender os interesses individuais." E então, por que Blair não se tornou o primeiro presidente da UE? "Hoje, às vezes fico pensando que, quando a presidência foi criada, eu deveria ter assumido essa posição - e realmente partido para uma campanha mais pública sobre o que eu pensava sobre a Europa."

O problema de Blair foi que Angela Merkel, da Alemanha (e outros líderes da UE) considerou Blair uma personalidade simplesmente grande demais - e, depois do Iraque, uma figura muito controvertida - para ocupar o novo cargo. Blair está diante do mesmo dilema ao ponderar uma reentrada no debate político britânico após cinco anos de (relativo) silêncio autoimposto. Amigos dizem que ele está desesperado por desempenhar um papel maior, não porque tenha qualquer ambição de concorrer a cargos importantes, mas porque quer fazer parte da discussão. Blair se encaixa na descrição que Hillary Clinton fez, em 1998, do presidente Bill Clinton: ele é um cão difícil de manter no quintal. Mas o centro de gravidade política mudou. Em 1997, ele liderou um Partido Trabalhista modernizado que deixou a revolução Thatcher intacta. Hoje, seu mantra de novo trabalhismo reformista destoa não apenas no Reino Unido, mas também na Europa, após a eleição do presidente socialista François Hollande. Os partidos de esquerda, pós-crise, são agora menos reformistas, mais inclinados a regulamentação e mais céticos em relação ao empresariado.

Um dos perigos da política moderna, diz Blair, é que estamos vivendo a "era dos tagarelas". Ele prossegue: "Há um debate interessante - especialmente no Ocidente - entre a política da raiva e a política de soluções". Naturalmente, ele se coloca na segunda categoria.

Blair: "Às vezes, pela maneira como a mídia se expressa, parece que em vez de ter ganho, eu perdi três eleições."

Então, qual é seu caminho de volta?

Blair: Não sei exatamente.

Mas deseja. É claramente algo para que você se sente pronto.

Blair: Sim, eu sinto que tenho algo a dizer. Se as pessoas quiserem ouvir, isso é ótimo, e se não o fizerem, essa é sua opção. Gostaria de enfatizar a rapidez com que o mundo à nossa volta está mudando e como é incrivelmente perigoso pensarmos que podemos ficar parados.

A crítica contra Blair é que ele é excessivamente pró-Israel. É acusado de maquiar uma contínua expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Blair rejeita as críticas, argumentando que nunca haverá um Estado palestino viável, a menos que a economia palestina e suas instituições desenvolvam força suficiente para tornar um Estado o resultado natural do processo de negociação. Mas, contesto, não há nenhum processo de negociação. As negociações de paz entre israelenses e palestinos estão moribundas. Eterno otimista, Blair cita o desmantelamento de barreiras comerciais, melhorias visíveis nos padrões palestinos de vida e um fortalecimento da Autoridade Palestina desde que foi nomeado para o cargo de representante do Quarteto (no mesmo dia em que deixou o cargo de primeiro-ministro).

Sobre as negociações no Oriente Médio: "Tony adquiriu um complexo de Messias após o acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda", diz um amigo

Blair assumiu o seu papel não remunerado no Quarteto com grandes esperanças de que poderia se envolver diretamente nas negociações de paz. Mas os americanos não aceitaram isso. Nem sua estreita relação com o presidente Bush nem com os Clinton poderiam persuadir os Estados Unidos a abandonar seu tradicional papel de intermediário. Quatro anos depois, e após 86 viagens à região, amigos de Blair dizem que ele ainda não abandonou seu sonho de forjar a paz no Oriente Médio mediante a pura força de sua personalidade. "Tony adquiriu um complexo de Messias após o acordo da Sexta-Feira Santa na Irlanda do Norte", diz um velho colaborador seu. "Ele traz o mesmo otimismo ao trabalho do Quarteto."

Blair tem uma relação mais próxima com o líder israelense Benjamin "Bibi" Netanyahu do que talvez qualquer outro no Ocidente. Depois de ter conquistado [o irlandês] Ian Paisley com seu charme, ele talvez imagine poder repetir a dose com Bibi. A questão é: quem está usando quem?

Acreditar que israelenses e palestinos podem viver juntos em dois Estados contíguos requer um voto de fé. E Blair é essencialmente um homem de fé. Então, eu pergunto se ele se sente arrependido em face das milhares de pessoas que morreram durante e após a invasão do Iraque. "Claro, lamento pelas pessoas... mas muita gente estava morrendo sob Saddam. Na verdade - não digo que você deva fazer isso, mas, se quiser, pode acrescentar - bem mais gente."

O Iraque ainda é uma ferida aberta. E também a decisão de abreviar o mandato de primeiro-ministro entregando o cargo a Gordon Brown, seu grande colaborador-rival. Dez anos em Downing Street não foram, evidentemente, tempo suficiente para Tony Blair. Ele sente falta de ser primeiro-ministro? "Em alguns dias, sim. Provavelmente, porque me esqueci de como era." Então ele percebe que sua resposta soa falso. "Não, não, é o contrário. É quando há grandes problemas que eu gostaria de estar lá."

O pesadelo não explicitado por Blair seria sucumbir, como Margaret Thatcher, a uma depressão pós-poder. Isso pode explicar seus diversos papéis, seu faturamento e suas viagens um tanto maníacas. Mas sua admissão mais reveladora é que ele daria tudo por um grande cargo.

Em outra vida, diz um antigo colaborador, Tony Blair teria sido um astro do rock. Fiel à etiqueta, ele posa para mais fotografias à medida que a entrevista chega ao fim. (Tradução de Sergio Blum)

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