O poderoso chefão do FBI
Uma cinebiografia inglória demais para os padrões hollywoodianos. J. Edgar Hoover revolucionou a criminalística, estabelecendo, como melhor exemplo, o sistema de identificação por impressões digitais. Foi também o homem responsável por tornar o FBI a poderosa instituição que é hoje - dirigindo-a por quase cinco décadas. Ele derrubou o comunismo nos Estados Unidos, ajudou a resolver casos históricos e prendeu gângsteres de renome, como John Dillinger, Machine Gun Kelly e Baby Face. Ademais, foi um narcisista, um manipulador hipócrita; uma figura da extrema-direita que perdeu noites de sono tentando incriminar gente do bem, como Martin Luther King.
Clint Eastwood decerto não embarcou no projeto com a intenção de redimir o personagem, tampouco de crucificá-lo. O que lhe interessa é o complexo ser humano que a história não contou. Por trás de sua imagem pública, Hoover escondeu traumas, vícios e, sobretudo, sua condição homossexual - incompatível com os valores conservadores com os quais cresceu e defendeu por toda a carreira.
J. Edgar (Leonardo DiCaprio) teve seu caráter moldado por uma mãe (Judi Dench) controladora, intolerante a fraquezas. Ela o ajudou a superar um problema de gagueira, encorajando-o a proferir repetidas frases de autoestima diante de um espelho. Desde cedo, incutiu-lhe ambições imodestas e, mais tarde, quando a natureza sexual do protagonista é posta em cheque, ela o reprime duramente. "Prefiro um filho morto a um homossexual", diz a personagem de Judi.
Assim, Hoover chega à vida adulta apelidado de "speed", em referência ao seu modo apressado, "non stop", de falar - que é o seu meio de driblar a gagueira. Solitário, ele se apega aos poucos que lhe dão atenção extraprofissional. Fora a mãe, partilham de sua intimidade apenas a secretária, Helen Gandy (Naomi Watts), e o amigo especial, por assim dizer, Clyde Tolson (Armie Hammer, de "A Rede Social"). Cavalheiro, perito em ternos de grife, o jovem Tolson é eleito o braço direito de Edgar, embora não possua as qualificações necessárias para integrar o FBI. Eles se tornam inseparáveis dentro e fora do Bureau: fazem todas as refeições juntos e, ocasionalmente, dividem o mesmo quarto de hotel. O filme, porém, sugere que a relação nunca foi propriamente consumada - por causa da resistência moral do protagonista.
"J. Edgar" põe a cronologia profissional de Hoover em segundo plano; repassa eventos históricos em ritmo "fast forward". É superficial e, por vezes, tendencioso. A cena em que ele aparece travestido com as roupas da mãe, por exemplo, é pura especulação do roteirista (o mesmo de "Milk - A Voz da Igualdade"). Compensa a sólida atuação de DiCaprio, ainda que a má maquiagem o faça parecer um garoto fantasiado de velho. Em tempo: narrado em flashbacks, o filme parte dos anos finais de Edgar.
Indicado para o Globo de Ouro de melhor ator (DiCaprio).
"J. Edgar"
EUA - 2011. Dir.: Clint Eastwood Distribuição: Warner / BBB
AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco



