Longa vida ao"Graceland" de Paul Simon
1985. Paul Simon vinha do fiasco comercial "Hearts and Bones" e já não tinha a gravadora ansiosa no seu pé, perguntando sobre os rumos de um próximo disco. Para outros artistas na mesma situação, esse status seria no mínimo preocupante. Simon, porém, enxergou na crise uma alforria criativa. Livre de cobranças e grandes expectativas, ele sentiu que podia fazer o que bem quisesse. Foi nesse ponto que aterrissou em Joanesburgo, na África do Sul, para gravar o álbum que ficaria conhecido como "Graceland".
À época, o afro-pop era a nova obsessão de Simon. Ele havia descoberto uma fita cassete chamada "Accordion Jive", dos Boyoyo Boys; e, desde então, não ouvia outra coisa. A faixa instrumental "Gumboots" foi particularmente importante para a gênese de "Graceland". Ao encaixar letra e melodia vocal sobre a base, Simon percebeu que tinha algo único em mãos - uma híbrida e espontânea fusão daquele universo sonoro com suas raízes folk. Com a ideia de gravar um disco inteiro nessa linha, perguntou à sua gravadora se alguém conhecia um produtor sul-africano com quem ele pudesse trabalhar. Indicaram um tal Hilton Rosenthal, mas o desencorajaram quando ele manifestou seu interesse em voar a Joanesburgo. Diziam que em Nova York havia músicos bastante qualificados para reproduzir aquele exato som. Simon, no entanto, estava determinado a ir direto à fonte.
Havia, porém, um obstáculo básico: àquela altura, o apartheid encontrava-se em seu momento mais crítico - e a ida de Paul Simon a Joanesburgo implicava o furo de um boicote econômico, cultural e esportivo, imposto pelas Nações Unidas no intento de fragilizar o regime. Simon foi devidamente alertado sobre as tensões políticas no país. O amigo Harry Belafonte chegou a sugerir que, antes de partir, ele pedisse uma permissão diplomática ao Congresso Nacional Africano, a fim de evitar transtornos. Em seu ingênuo idealismo, Simon acreditava que não seria necessário; que o poder unificador da música triunfaria em sua estada africana.
Placas com os dizeres "Go home, yankee" ("volte para casa, yankee") recepcionaram o artista, que gravou "Graceland" sob uma chuva de críticas - dentro e fora da África. Embora as sessões tenham transcorrido num clima de catarse coletiva, o mal-estar causado por sua presença, por vezes, também chegava ao estúdio. Os próprios Boyoyo Boys, por exemplo, compareceram de má vontade. Por fim, participariam apenas da regravação de "Gumboots".
Apesar disso, "Graceland" trouxe ao mundo clássicos como "The Boy in the Bubble", "You Can Call Me Al", "Homeless", "Diamonds on the Soles of Her Shoes" e a faixa-título. É o maior hit solo de Simon, com vendas em torno de 14 milhões de cópias. Venceu dois Grammys, incluindo o de álbum do ano, e hoje figura em qualquer lista de "melhores de todos os tempos" que se preze. Recentemente, seu som foi largamente reciclado num revival afro-pop encabeçado por bandas como Vampire Weekend e The Dirty Projectors.
Esta edição comemorativa inclui seis faixas adicionais, entre demos e versões alternativas - não há nada excepcionalmente inédito. Compensa o DVD bônus, que inclui videoclipes e um novo documentário, "Under African Skies", dirigido pelo premiado Joe Berlinger. Com aparições de David Byrne, Quincy Jones e Miriam Makeba, o filme registra o reencontro de Simon com os músicos de "Graceland", 25 anos depois. Claro, também remonta os tumultuados bastidores das sessões com um vasto acervo de imagens de arquivo. Imperdível.
"Graceland - 25th Anniversary Edition"
Paul Simon. Distribuição: Sony / AAA
AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco



