História enfim respeitada
O relógio do século XVIII estava abandonado num depósito, e sem a estatueta de Netuno, encontrada por acasoO amplo corredor que dá acesso ao gabinete da presidente Dilma Rousseff, no terceiro andar do Palácio do Planalto, receberá em breve uma nova peça de decoração: um raro relógio fabricado pela família que atendia a corte de Luís XIV substituirá o quadro "Barbearia", de Francisco Galeno. A peça, avaliada em aproximadamente R$ 250 mil, estava esquecida num depósito do governo. Agora, pode se tornar símbolo da busca feita recentemente pela Diretoria de Documentação Histórica do Gabinete Pessoal da Presidente da República nos galpões e palácios presidenciais. Restaurado, o relógio passará a marcar um novo tempo nos cuidados dispensados a objetos de arte e mobiliário, não apenas em respeito a seu valor histórico, literalmente, mas também na atualização de seu valor material, reduzido a quase nada numa contabilidade carcomida por seguidas desatualizações monetárias e pelo descaso de uma máquina burocrática pouco afeita a considerações de ordem estética.
Para que o relógio seja instalado em seu novo espaço, o governo precisará realizar uma licitação para contratar um especialista que consiga fazê-lo voltar a funcionar - pendência a ser resolvida a curto prazo. A criação de um mecanismo que leve servidores de todos os escalões da administração federal a ter mais cuidado com o acervo público, por sua vez, ainda precisará ser estudada pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão para sair do papel.
A pauta não é de simples solução. O diretor de Documentação Histórica da Presidência, Claudio Soares Rocha, conta que o valor de diversos móveis e peças de arte do governo foi reduzido a praticamente zero. Assim como ocorre na declaração do imposto de renda, esses ativos foram registrados no patrimônio público da União com o valor de compra da época da aquisição. Com os sucessivos planos econômicos e mudanças de moedas, a administração pública optou por atribuir a esses itens o valor simbólico de R$ 0,01.
A desvalorização acabou reduzindo a preocupação de gestores e servidores públicos com a manutenção e o cuidado no trato desse patrimônio. Por isso, decidiu-se dar os primeiros passos para alterar essa situação. Soares Rocha aproveitou um convite da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para fazer a curadoria de seu gabinete e advogou a mudança na atual metodologia de contabilização desses ativos.
O quadro "Palácio do Planalto", obra de Firmino Saldanha, foi encontrado, esquecido, num canto da garagem do Palácio do Jaburu
Soares Rocha montou um arquivo de referências de valores, com anúncios publicados em sites estrangeiros especializados na venda de móveis assinados por arquitetos ou designers renomados. As ofertas dão uma ideia de quanto o governo subestima seu patrimônio. Um par de "cadeiras do juiz", de Jorge Zalszupin, por exemplo, estava à venda em fevereiro por US$ 11.800. Uma mesa do mesmo arquiteto era cotada a US$ 8.200, enquanto uma outra, de Sergio Rodrigues, poderia ser comprada por US$ 18.000. Zalszupin e Rodrigues são justamente alguns dos nomes de responsáveis pela criação de móveis em recuperação pertencentes ao acervo da Presidência.
As consequências do descaso com que esse mobiliário veio sendo tratado podem ser vistas na oficina de restauração mantida pelo Palácio do Planalto em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Cerca de 700 móveis, na maioria assinados por Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Sergio Bernardes e Joaquim Tenreiro, estão sendo recuperados. Foram recolhidos em galpões e depósitos de órgãos federais nos últimos anos, depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu restaurar o Palácio do Planalto. Quando o trabalho for concluído, os móveis que antes estavam abandonados serão reacomodados no palácio.
A oficina tem também o objetivo de formar técnicos em restauração de móveis modernos e contemporâneos. Os aprendizes são 40 jovens de cidades-satélites de Brasília em situação de risco, que, além do curso prático e de teoria da arte, recebem transporte e alimentação da Presidência da República.
Conjunto de poltronas Veronka, de Sergio Rodrigues (foto), agora em processo de recuperação, foi "redescoberto", assim como móveis de Jorge ZalszupinO projeto foi concebido no governo passado, quando Lula pediu ao diretor de Documentação Histórica do Gabinete Pessoal da Presidência e ao arquiteto Rogério Carvalho, braço direito de Soares Rocha na curadoria do Palácio do Planalto, que um pente fino fosse feito nos depósitos do governo. O então presidente também decidiu alterar as normas de exibição dos objetos de arte que fossem encontrados e dos já catalogados. Para garantir acesso amplo às obras, ficou decidido que as salas de espera e os gabinetes dos ministros teriam direito a apenas um quadro de autor renomado cada. O restante do acervo teria de ficar nas áreas públicas dos prédios.
A realocação do raro relógio, fabricado no século XVIII, seguirá essa orientação. O que atesta a sua procedência é uma assinatura, do relojoeiro Martinot, gravada na máquina. Outra marca do fabricante está na base da peça, mas acabou danificada ao longo do tempo. "É a assinatura na máquina que nos dá a mais absoluta certeza da sua proveniência", afirma Soares Rocha.
Quando o relógio foi encontrado, havia um fenda na sua parte superior. Em outra busca, o mistério foi desvendado. Numa serralheria da Presidência, foi encontrada uma pequena estátua de Netuno. Um antigo funcionário do governo que lá trabalha deu a pista: lembrou que a estatueta pertencia a um antigo relógio que fora transferido daquele local havia cerca de 20 anos. De fato, a estatueta se encaixou perfeitamente no relógio.
"Nossa dúvida, e o que a gente não vai decifrar nunca, é se o relógio foi um presente para d. Pedro I ou d. Pedro II ou um presente do Conde d'Eu para a Princesa Isabel", lamenta Soares Rocha.
O relógio é do mesmo período de outros três itens encontrados pelos responsáveis pelo acervo da Presidência: uma "garniture" composta por uma floreira e dois candelabros feitos de bronze ormolu, material que garante às peças uma "eterna" coloração dourada. "Isso é certamente francês", observa Soares Rocha.
O quadro "Baía de Guanabara", de Lia Mitarakis, hoje num dos halls de acesso ao Palácio do Planalto, estava num banheiro
Ele acredita que, pela idade, as peças tenham percorrido um grande trajeto antes de serem resgatadas durante a reforma do Palácio do Planalto. Podem ter já adornado os palácios das Laranjeiras, Guanabara, Catete e Alvorada. "Estão pelo menos há mais de 20 anos esquecidas em depósitos."
Esses não foram os únicos artigos "resgatados". Segundo Soares Rocha, o quadro "Baía de Guanabara", de Lia Mitarakis, foi encontrado num banheiro do Palácio do Planalto e hoje está exposto num dos halls de acesso ao edifício.
Outro exemplo é o quadro "Palácio do Planalto", de Firmino Saldanha. Feita especialmente para decorar o palácio, a obra foi encontrada num canto da garagem do Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República. Antes de ser retirado do Palácio do Planalto, o quadro ficava na sala de reuniões do gabinete presidencial. Atualmente, está exposto ao lado da rampa curvilínea que liga o segundo andar ao mezanino do terceiro pavimento, usada pela presidente Dilma Rousseff e demais autoridades que a acompanham quando ela deixa sua sala e desce em direção ao salão onde as principais solenidades são realizadas no palácio. "Hoje está no terceiro andar do Palácio do Planalto, de onde não deveria ter saído", diz Soares Rocha.
A busca não se limitou aos depósitos e garagens da Presidência, onde foram localizados também quatro tapetes e uma passadeira nacionais dobrados dentro de um saco de juta. "E o palácio enfeitado com tapete persa...", ironizou Soares Rocha. Foram achados também dois quadros atribuídos a Juan Miró, cuja autoria ainda não foi confirmada.
A Diretoria de Documentação Histórica do Palácio do Planalto resgatou ainda um banco projetado por Oscar Niemeyer que tomava chuva num almoxarifado da Universidade de Brasília. E conseguiu obter a guarda de alguns móveis do Congresso Nacional que seriam leiloados e poderiam, talvez, ser encontrados nos sites estrangeiros que Soares Rocha monitora.

